
Coopa-Rocca: borbando o futuro
Exposições na Holanda, França e Alemanha. Participações nas semanas de moda de São Paulo, Paris e Londres. Parcerias com designers franceses e britânicos. O currículo é impressionante, mas pode ser que você ainda não tenha escutado sobre essa super companhia de design. E sim, ela é brasileira. Trata-se da Coopa-Roca, cooperativa de artesãs localizada na maior favela do Rio de Janeiro, a Rocinha.
A Coopa-Roca, ou Cooperativa de Trabalho Artesanal e de Costura da Rocinha Ltda., surgiu em 1981, tendo como missão gerar melhores condições de vida para suas cooperadas, todas moradoras da favela. Utilizando técnicas tradicionalmente brasileiras como fuxico, crochet, nozinho e retalho, com agulha e linha as artesãs bordam um futuro melhor para si próprias e para suas famílias. A equipe conta hoje com 100 mulheres que, unindo talento e profissionalismo, são referência internacional tanto pela qualidade do que produzem como pelo exemplo de projeto de inclusão social que juntas estão construindo.
Mas não é só na criação e senso estético que a cooperativa desponta. O grupo se utiliza de técnicas empresariais sofisticadas, o que lhes garante produtividade, reconhecimento e importantes parcerias no mercado. As artesãs produzem em suas próprias casas, conciliando o trabalho com os afazeres domésticos, em modalidade de organização surgida na Inglaterra em 1844. Na pequena cidade de Rochdale foi criada, pelas mãos de 28 tecelões, a primeira cooperativa de consumo que se tem notícia. O conceito resiste, e o ideal da cooperativa fortalece-se a cada dia no cenário internacional – entidades como o Arts Council England fomentam cada vez mais o debate de regeneração de comunidades através de seu potencial criativo.
É claro que essa orquestra de bordadeiras-empresárias tinha que ter um maestro. Ou melhor, maestra. Marisa Teresa Leal, mais conhecida como Tetê, é a business woman do grupo. Socióloga formada na UFRJ, ela é a criadora e coordenadora da Coopa-Roca, e está por trás de todas as articulações e parcerias que o grupo alcança afim de aumentar sua visibilidade e garantir uma atuação maior dentro da favela. Pelo seu trabalho no projeto, a socióloga se tornou referência quando o assunto é negócio inclusivo. Em um momento de proliferação de ONGs e projetos de capacitação no Brasil, Tetê e a Coopa-Roca vão além do discurso e já têm muitos resultados para mostrar. Tudo fruto de muito trabalho, talento e visão empresarial.
Além da projeção internacional, a cooperativa também alça vôos altos dentro do Brasil. Em 2002 seus trabalhos foram expostos no maior espaço cultural do país, o SESC Belenzinho, em São Paulo. De agosto a setembro desse ano fizeram parte da programação do maior centro cultural brasileiro em número de visitantes, o CCBB do Rio de Janeiro. Peças desenhadas especialmente para a mostra - parcerias das artesãs com designers brasileiros e estrangeiros - ocuparam um andar inteiro do centro, na que foi uma das mais celebradas exposições do país em 2007 até o momento. E o desejo do grupo é levar algumas dessas peças para serem expostas no exterior. Elas já chegaram a Paris, comecemos a torcida para que a mostra passe por Londres (Tetê acabou de passar por aqui para promover o trabalho da Coopa-Roca).
Sem receita mágica, Tetê e as artesãs da Rocinha nos mostram que é possível a reestruturação de uma comunidade através do trabalho. Associar criatividade a profissionalismo é a maior lição que o Brasil e o mundo podem tirar do trabalho da Coopa-Roca.
WORDS: Feliphe Lavor