
Depois do sucesso no Fringe Festival, em Edimburgo, balé de rua chega a Londres
Confira a íntegra da entrevista com Fernando Narduchi
Você poderia nos contar como foi que o Balé de Rua conseguiu alcançar a difícil proeza de sair das ruas de Uberlândia para os palcos da Europa? Quem foram os principais personagens dessa história?
Quando nós começamos ninguém acreditava que pudéssemos chegar a algum lugar. Amigos e familiares nos diziam: "isto não vai levar vocês a nada, dança não dá futuro". Realmente para muitos tudo parecia um sonho impossível. Na fundação do grupo em 1992 traçamos como nossos principais objetivos nos profissionalizar, conquistar um espaço no cenário da dança brasileira e quem sabe um dia viajarmos para o exterior levando a nossa arte e o nome do nosso país. Éramos e ainda somos um grupo de sonhadores. Foram os sonhos, ou melhor, a fé nos nossos sonhos, que nos mantiveram vivos até hoje. Além disto muito trabalho, dedicação e entrega total ao que fazemos. Tudo começou com Fernando Narduchi, Marco Antônio Garcia e José Marciel Silva.
O que o Balé de Rua tem de especial / diferente em relação a outras companhias de dança do Brasil?
O Brasil é um país de uma diversidade cultural muito grande com diversos grupos de dança dos mais diversos estilos. O que posso dizer do Balé de Rua com convicção é sua originalidade e autenticidade. Quando começamos nosso grande desafio foi o de desenvolver uma identidade própria, uma maneira nossa de fazer dança. É isto o que temos buscado ao longo dos anos. Sempre fomos um grupo de pesquisa e não temos medo de arriscar. Hoje, depois de 17 anos de trabalho temos o orgulho de sermos nós mesmos, acho que esta foi nossa maior e mais importante conquista - ter um nome, uma assinatura. Outra singularidade da companhia é que nenhum de nós nunca teve uma formação acadêmica em dança, somos autodidatas. Nossas raízes estão na cultura popular brasileira e no hip-hop e foi desta mistura que surgiu o Balé de Rua. Outro detalhe é que a companhia vem sendo construída através de um esforço coletivo e não apenas de uma diretoria. Convivemos como uma família.
Depois de ter conquistado plateias em importantes eventos como o Fringe Festival, como fica para o Balé a importância e a dedicação ao público brasileiro? Não existe um risco de deixá-lo para trás, visto que o espaço para dança no Brasil é mais limitado?
Posso dizer que o público brasileiro tem uma importância especial e fundamental para nós. Sempre ficamos muito excitados quando dançamos para nossa gente. No entanto estas oportunidades não são muitas, pois realmente o mercado de dança no país é bastante limitado. Nós temos procurado conciliar as turnês internacionais com apresentações por aqui. Por exemplo, no próximo dia 13 de maio estaremos nos apresentando em uma pequena cidade do interior de Minas chamada Tupaciguara. A apresentação será ao livre na praça central da cidade e vamos subir no palco com a mesma garra e emoção que dançamos em Paris ou no Fringe. Nossas conquistas foram feitas passo a passo através de muito esforço e é com muita humildade que colhemos os frutos de uma projeção internacional. Encaramos tudo isto com muita naturalidade e assim mantemos os pés no chão. O Brasil é a nossa pátria e o nosso povo nunca ficará para trás. Por outro lado, os compromissos que temos assumido nos obrigam a permanecer longos períodos fora do Brasil, mas temos conseguido conciliar nossas atividades no Centro Cultural Balé de Rua com as turnês no exterior.
Como vocês veem o momento atual da dança brasileira internacionalmente? E que esperam que esteja por vir?
A dança no Brasil é muito rica. Atualmente existem no país, de norte a sul, muitos artistas e companhias desenvolvendo trabalhos de grande qualidade artística e técnica. Alguns deles estão conseguindo se projetar internacionalmente mas as oportunidades não são muitas. A circulação de espetáculos de dança é bastante restrita principalmente para aqueles grupos que tem um elenco grande. Isto é válido tanto para os circuitos internos quanto para os internacionais. De qualquer forma, acredito que a dança brasileira é muito respeitada no exterior, é o que temos notado em nossas andanças. O que esperamos é que haja cada vez mais espaço para a circulação da dança. O nosso trabalho é feito para ser compartilhado com o grande público. É no palco que nos realizamos plenamente como artistas e como pessoas.
Existe alguma emoção particular do grupo em se apresentar em Londres ou é apenas mais um palco europeu?
Sim, existe uma grande emoção. Cada palco é um palco, cada cidade é única. Para nós é sempre como se fosse a primeira vez. Nós tivemos a oportunidade de dançarmos no Reino Unido quando fomos para Edinburgo na Escócia e gostamos muito de tudo, das pessoas, da cidade, da receptividade, o dia-a-dia da cidade. Foi uma experiência super positiva que nos deixou ótimas recordações. Londres é uma cidade especial, pela sua história e por ser um grande centro cultural. É a primeira vez que estaremos dançando na cidade e nossa expectiva é grande. Estamos muito motivados e esperamos que o público londrino aprecie o nosso trabalho. Estamos levando um pouco de nossas vidas e de nosso país. A responsabilidade é grande mas estamos indo com o coração cheio de amor para dar.