Velejando com Bach - violinista que rodou o mundo para ajudar crianças pobres da áfrica
por Feliphe Lavor
Um cara branco, de olhos azuis, todo de preto, com um violino, toca música clássica no meio de uma favela do Rio de Janeiro. Essa cena insólita, mas verídica aconteceu há alguns meses. O protagonista: David Juritz. Ao atravessar uma crise de meia-idade – como ele mesmo afirma – David decidiu viajar pelo mundo tocando violino em lugares públicos, coletando doações para oferecer educação musical a crianças carentes de países em desenvolvimento. Assim, nasceu o projeto Volta ao Mundo e Bach.
Em Londres, onde vive, David é o respeitado líder da London Mozart Players, a orquestra de câmara mais antiga da cidade. Entre apresentações internacionais e outros projetos, ele já guiou orquestras em trilhas sonoras de grandes filmes como O Mercador de Veneza e O Último Rei da Escócia. Casado e pai de dois filhos, podemos dizer que David goza de uma vida tranqüila e estável na
Inglaterra. Pois, nos meses em que esteve viajando, o glamour das salas de concerto e a tranqüilidade da vida familiar passaram longe. David saiu de casa sem um tostão no bolso, apenas com seu violino e uma mochila nas costas, pronto para tocar seu instrumento na rua.
O plano, apesar de inusitado, era relativamente simples: sair viajando, tentar fazer contatos antes de chegar a cada destino e tocar em qualquer lugar, coletando o máximo de doações possíveis. A jornada começou no último dia 23 de Junho e durou exatamente 4 meses, partindo da Europa, depois África, Austrália, Ásia, América do Sul, e por fim EUA e Canadá. Ele esteve no Rio de Janeiro em setembro último. Por lá, se apresentou aos pés do Cristo Redentor, em uma favela, em uma escola pública de música e em várias praças da cidade. Engraçado notar que não existe uma palavra específica para ‘busking’ em português, mas pelo que parece ele foi bem compreendido em sua passagem pelo Brasil. David já está marcando sua volta ao Rio – dessa vez com sua família.
Nesses quatro meses, como era de se esperar, David passou por tudo e mais pouco. A contabilidade é interessante: 50 cidades, 24 países, 14 cordas de violino rompidas, 2 milhões de notas musicais tocadas, 4 pares de meia, 1.236 emails enviados, “obrigado” aprendido em 13 línguas diferentes.
Mas o número mais importante comprova o sucesso de sua empreitada: US$ 50.000 foram arrecadados para o Musequality, o projeto social coordenado pelo violinista. Esse valor será encaminhado para os três centros que o Musequality auxilia no continente africano: o Tender Talents Magnet School em Kampala, Uganda, que cuida de adolescentes órfãos com AIDS e crianças
refugiadas vindas de conflitos no país; o Hout Bay Strings, na Cidade do Cabo, um projeto musical que retira crianças de favelas da África do Sul; e o Melodi Music Project, em Soweto, que provê educação e instrumentos musicais para crianças carentes de Johannesburgo.
Detalhe: todos os custos com transporte, alimentação e estadia de David nas cidades em que ficou foram cobertos pelas doações que conseguia enquanto tocava. Isso, claro, quando uma alma caridosa não o hospedava ou dava uma carona. Mas isso não aconteceu sempre, e David teve que tocar até o fim de sua viagem. Literalmente. O último ponto de busking foi em Heathrow,
no seu retorno à Inglaterra no dia 23 de Outubro, para que ele pudesse juntar as £3 necessárias para pagar o bilhete do metrô até sua casa em Turnham Green!
Visite o site do projeto e dê uma olhada nas fotos das viagens. Quem sabe não te dá idéias para atravessar bem sua crise de meia-idade?
JD
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