Quando a fé move rios

A batalha entre um bispo em greve de fome versus o governo brasileiro

É uma história que envolve milhões de pessoas e bilhões de dólares. Conta com a participação do exército, do Vaticano e do presidente da república. E para um dos seus personagens, um bispo de uma cidadezinha da Bahia, virou uma questão de vida ou morte.

Luiz Flávio Cappio, 61 anos, começou no dia 26 de novembro de 2007 sua segunda greve de fome contra a transposição das águas do Rio São Francisco – o quarto maior rio da América do Sul, com 2.700 km de extensão, cujas águas atravessam cinco estados brasileiros e passam pelas áreas mais pobres e secas do país. A transposição do Rio é assunto polêmico desde 1985, quando começou a ser discutido. Ganhou a dimensão épica agora porque o governo Lula resolveu botar a mão na massa.

O projeto consiste no seguinte: transferir um pouco das águas do Rio para o abastecimento de pequenos rios e açudes da região Nordeste que secam durante o período de estiagem. O governo diz que esse pouco de água se limita a apenas 1,4% da vazão do trecho do São Francisco onde será feita a captação. Cerca de 400 municípios do agreste e do sertão (12 milhões de pessoas) seriam beneficiadas quando da conclusão do projeto em 2025.

Já a polêmica em torno do projeto se dá pela seguinte razão: primeiramente, alguns pareceres técnicos e ambientais necessários para o início do projeto foram aprovados na base da “canetada”, sem muita justeza, nem discussão pública. Além disso, muitos críticos dizem que a transposição vai sacrifi car o Rio São Francisco – não só não matará a sede de milhões de pessoas, como vai tirar o sustento da população ribeirinha que depende dele atualmente. Também há o receio de que a transposição vá beneficiar grandes latifundiários e não a agricultura de subsistência.

“Esse projeto é economicamente inviável. O próprio governo já tem alternativas pela metade do preço. No começo deste ano, a Agência Nacional das Águas (ANA) lançou 530 alternativas para o abastecimento hídrico das comunidades urbanas de todo o Nordeste. Elas atenderiam 34 milhões de pessoas e são mais baratas e viáveis do que a transposição”, acrescenta o bispo Luiz Flávio. O projeto vai custar U$2 bilhões.

Em 2005, a greve de fome do bispo foi encerrada no 11º dia de protesto após a assinatura de um acordo com o governo (Lula se comprometeu a colocar o projeto em discussão junto à sociedade). Segundo o bispo, o governo o enganou e ele só interrompe a greve desta vez se o Exército deixar as margens do rio ou as obras forem suspensas.

Em tempo: o Exército está tocando a obra porque esta foi a solução que o governo encontrou para por o projeto em prática.

O governo se defende dizendo que já fez todos os estudos necessários e garante que a transposição vai benefi ciar 12 milhões de pessoas. “Não há diálogo com Cappio”, diz o ministro da integração nacional. Lula garante que a obra continua e que o bispo quer colocá-lo num impasse ao fazê-lo “optar entre ele e os 12 milhões de nordestinos que precisam de água para
sobreviver”. O Vaticano – que em 2005 já havia condenado a greve de fome – pediu de novo para o bispo encerrar o protesto. Em vão.

“O governo não respeitou os mínimos princípios democráticos na realização desse projeto, passou por cima de tudo e iniciou a obra com atitudes impositivas”, diz dom Cappio, um ex-militante do PT.

“Não sei como o ministério do Meio Ambiente aprovou esse projeto que está aí, ele tem muitos problemas” garante à JungleDrums uma funcionária da Procuradoria Geral da República que analisou o projeto minuciosamente.

“O que está por trás da transposição são as grandes multinacionais interessadas na produção de camarão em cativeiro e na produção de frutas nobres para exportação. Não pense você que o governo está preocupado com os pobres. Eu moro na beira do rio há 33 anos e nem onde o rio passa naturalmente o povo é assistido. Se realmente o governo estivesse interessado nos pequenos deste país, ele atenderia os pobres de onde o rio passa hoje”, diz o bispo em greve de fome.

A seca do Nordeste brasileiro é um dos problemas mais antigos e emblemáticos do Brasil. Luiz Flávio Cappio garante que não vai encerrar a greve se a obra não for paralisada, mesmo correndo risco de morte. “Não quero morrer. Tenho muito amor à vida, mas coloquei a vida para defender o meu povo. Minha missão é esta. As vezes é necessário que a semente caia no chão e apodreça para que renda frutos”, afirma dom Cappio.

E Lula não pretende paralisar as obras. O governo já derrubou 12 liminares que impediam o início das obras em 2006 e parece determinado a seguir em frente. Tudo indica que a briga vai longe. Mas se já temos nessa história a cúpula do governo e da igreja, o Exército e milhões de pessoas, quem mais vai falta intervir para buscar uma solução para o rio São Francisco? Deus? Ou Moisés? JD

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