
São Luís: Terra de Jesus
Fome de boi
“Catirina, grávida, só queria comer a língua do boi. Mas não era um boi qualquer, ela desejava o boi mais querido da fazenda. Ao notar a falta em seu gado, o fazendeiro mandou fazer uma busca, foi então que o encontrou bem adoecido...”. Esse é apenas o começo de uma lenda que transforma a cidade: as festividades do Bumba-meu-boi. Durante o mês de junho, esta e outras manifestações culturais tomam conta de São Luís, e quem quiser conferir basta se juntar às aglomeraçðes na rua. Enquanto as celebrações de festa junina no restante do país têm características semelhantes, no Maranhão e no vizinho estado do Pará prevalece a encenação da lenda do bumba-meu-boi. Contada por grupos que se valem da dança, música e teatro, esta é uma verdadeira ópera popular. As origens desta festividade estão em tradições culturais européias, africanas e indígenas, que mescladas deram forma a uma nova celebração.
Em qualquer outra época do ano, quem anda por São Luís não consegue ficar imune ao som do reggae. Curiosamente o estilo foi muito difundido por aqui, o que rendeu o apelido de Jamaica Brasileira à cidade e resultou em uma cena forte e original. Acanhadas casas noturnas muitas vezes ostentam um enorme paredão formado por caixas de som (as chamadas radiolas) e quando a festa comeca o local todo vibra com a potência do som. Somente aqui você pode ver casais dançando reggae juntinho, agarradinho, muitas vezes lentamente, curtindo a “pedra” (nome dado à canção quando ela faz sucesso).
Fora do centro, a Lagoa da Jansen é outro lugar bem badalado. Se durante o dia o ambiente é tranquilo com famílias passeando em seu parque, ela logo desaparece ao anoitecer com o agito dos barzinhos. A música é mais variada por aqui, e de acordo com o dia rola forró, rock e dance music. Um dia de passeio e mais uma noite animada de balada foram suficientes para me derrubar, mas nada como contar com amigos que conhecem as providências necessárias. Perto dali, na Ponta D’Areia, como em um after party, o Bar Trapiche com seu ambiente zen oferece uma boa refrescada nos ânimos.
Fato incontestável em qualquer parte do mundo, existe um periodo crucial entre o fim da balada e a volta pra casa quando bate aquela fome devastadora. Eis então que uma verdadeira instituição da noite de São Luís acude os famintos, o célebre cachorro-quente do Sousa. De volta ao centro, a história parecia completar seu ciclo. Enquanto comia me abstraí do grupo para olhar ao meu redor e ver as ruas desertas, um cenário que bem poderia ser idêntico ao de dois séculos atrás. Foi então que bruscamente interrompido de meus pensamentos, alguém me cutucou e uma vez mais ele veio a mim, talvez para se despedir. Bem gelado. E rosa.