Marajó: Na Natureza Selvagem

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Natureza Ancestral

São seis da tarde e a chegada do pôr-do-sol é acompanhada por nuvens de pássaros no horizonte da Fazenda do Carmo, em Salvaterra. A floresta é tomada pelo rugido sombrio dos macacos guaíbas – um ronco assustador que parece vir de um filme de terror. Do forno à lenha do casarão português, saem os pães quentinhos da dona Maria do Rosário (ou dona Rosa). Talvez pela total sensação de isolamento e pela distância do caos urbano de Belém, aquele me pareceu o melhor pão que já comi. Para Rosa, é apenas mais um fim de tarde.

Quando amanhece, seguimos pelo curso estreito do rio Camará, que dá acesso à fazenda, e nos deparamos com um animal que lentamente atravessa o rio. Ele mantém apenas a cabeça fora da água, num esforço sereno contra a forte correnteza. É um bicho-preguiça, que não se assusta com nossa presença. Ao nosso redor estão árvores de mais de 25 metros e um ecossistema ainda bastante preservado, a sensação que se tem é de que o Marajó representa a natureza em seu estado mais genuíno. Nada, a não ser nós mesmos, denunciava a presença do homem por ali.

A alguns quilômetros mais adiante, após o movimentado centro de Salvaterra, chegamos à orla do rio Paracauary, de onde se enxerga, na outra margem, o município de Soure. A cidade tem cerca de 22 mil habitantes, a maior da ilha do Marajó, considerada assim a capital do arquipélago. As antes tranqüilas noites de Soure têm sido animadas nos últimos anos pelo punch agressivo das aparelhagens de tecnobrega. Inspiradas nas soundsystems jamaicanas e reconfiguradas no ambiente urbano da periferia de Belém, elas são operadas por DJs que acionam sobre as bases do brega batidas ultra-nervosas e letras urgentes que ganharam espaço entre a juventude marajoara, em atrito com o carimbó tradicional da ilha.

Presente também em outras regiões do Pará, o carimbó é produto da fusão das culturas indígena, negra e portuguesa, um ritmo que trabalha batuque e dança embalados por instrumentos como o banjo e a flauta transversal. Seus dançarinos representam pescadores que sucumbem aos jogos de sedução das caboclas. Em alguns momentos, elas se fundem com a figura mística da sereia, cujo encanto pode levar para o fundo do mar pescadores mais incautos. A água, afinal, é o componente essencial do imaginário de uma região permeada pelo rio e o mar.

Soure e Salvaterra concentram grande parte das queijarias da ilha, de onde sai o queijo do Marajó. Feito com o leite da búfala, o queijo é tradicionalmente produzido de forma artesanal, moldado em pequenas formas quadradas de madeira de onde saem blocos amarelados. Tendo em vista o mercado externo, algumas queijarias modernizaram seus processos, passando a produzir em larga escala e segundo padrões internacionais de qualidade.

O búfalo também está presente em diversos outros pratos, como o rústico Frito do Vaqueiro. As partes duras do búfalo ou do boi são fritas em cubos na própria gordura da carne, gerando um caldo gorduroso que se preserva por duas ou três semanas, ideal para as longas jornadas dos vaqueiros pelas fazendas. Para acompanhar a carne, levam apenas farinha e frutas encontradas ao longo do caminho. Uma grande variedade de peixes e de carnes de caça, como jacaré, mussuã (espécie de tartaruga) e macacos, completam a culinária local mais primitiva. O consumo da carne de caça, no entanto, é restrito e fiscalizado pelo Ibama.
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