SÃO PAULO: a vista é de graça. O que a cidade está fazendo sobre o assunto?
sem placas | Passada a fase de adaptação, que deixou a cidade marcada por carcaças de outdoors, as fachadas sem nenhum anúncio deram lugar, em grande parte, a pequenas faixas com o nome da loja. Porque não é só o espaço público que segue as normas da Cidade Lima, mas todos os comércios da cidade. A cada estabelecimento é permitido manter na fachada um único anúncio com todas as informações necessárias ao público. Esse anúncio deverá ter um tamanho máximo, definido segundo a dimensão do imóvel.
Sem dinheiro ou sem tempo suficiente para instalar uma placa nova, os comerciantes têm recorrido às faixas temporárias para não perder os clientes mais desavisados. A Associação Comercial de São Paulo afirma que 60% das lojas estão com as novas fachadas prontas. A entidade acredita que, até abril de 2008, a transição termine completamente e após um ano da aprovação da lei todo mundo vai estar adequado às novas regras.
Para conferir o resultado da adaptação dos comerciantes à Cidade Limpa, basta percorrer ruas de comércio da cidade. Em endereços famosos como a Rua 25 de Março e a Rua Augusta há a predominância das “faixas”. O que significa dizer que o caos diminuiu, mas ainda falta beleza na cidade.
na vista do povo | Quem está todos os dias no centro da cidade, diz que pouca coisa mudou. Para essas pessoas, São Paulo ainda é caótica, com muito trânsito e prédios sobrepostos. A lei Cidade Limpa é popular entre os moradores, mas poucos se empolgam com as “transformações” tão comemoradas pela prefeitura.
A verdade é que os cidadãos pouco percebem as mudanças na paisagem: quando perguntados sobre os efeitos da lei, precisam de tempo para pensar numa resposta. “Não vejo diferença. Para mim, toda a cidade é feia. Não reparo se tem mais ou menos placas penduradas por aí”, opina Rafael Teixeira, de 19 anos, funcionário de uma banca de jornal no Largo São Bento. Para dois policiais militares que trabalham na região da Rua 25 de Março, os letreiros escondiam a sujeira e o abandono das fachadas. “O prefeito fala muito dessa lei, mas pra nós a vida continua difícil e violenta”, desabafa o policial que prefere não se identificar.
O gari Reginaldo da Silva, 18 anos, admite que a cidade está mais organizada, mas lamenta o desemprego de colegas: “Muita gente ficou sem trabalho depois dessa lei. Conheço um pessoal que pintava as faixas de anúncios e que agora não sabe o que fazer da vida”. Foi esse o argumento mais forte do Sindicato das Empresas de Publicidade Exterior de São Paulo (Sepex) contra a lei: na época da aprovação do texto na Câmara de São Paulo, a estimativa da entidade era que entre 18 e 20 mil pessoas perdessem o emprego. Um ano depois, a Associação Comercial de São Paulo, que fazia coro à previsão pessimista, é mais amena: “Ainda não existe uma estatística que comprove o aumento do desemprego em decorrência da lei, mas sabemos que várias empresas encerraram as atividades neste período”, pontua Roberto Mateus Ordine, um dos diretores da entidade.
“A lei definitivamente pegou”, comenta Ordine sobre a adesão dos comerciantes à Cidade Limpa. O diretor da Associação, no entanto, ressalta que ainda há discordância entre prefeitura e lojistas. Para Roberto, alguns aspectos ainda não são muito claros quando o assunto é a recuperação da fachada: já ocorreu de comerciante ser surpreendido com uma multa enquanto pensava que estava cumprindo a lei. “Quando o prédio é histórico, há um projeto arquitetônico a seguir. Mas quando não há um estilo definido, cada um faz o que acha bonito na fachada da loja. E já aconteceu da prefeitura considerar que algumas reformas estavam fora dalei”, explica Ordine. Segundo o diretor, alguns empresários chegaram a gastar R$ 200 mil para atender às exigências.
Os lojistas ligados à Associação Comercial são unânimes quanto a um aspecto negativo da lei Cidade Limpa: ela descaracterizou alguns pontos turísticos da capital paulista. O bairro da Liberdade é o exemplo mais evidente: a decoração oriental tão famosa foi completamente retirada das ruas. “Alguns turistas estrangeiros chegam aqui querendo conhecer a Liberdade que eles viram nos filmes sobre o Brasil. ‘Entrou para os livros de História’, eu tento explicar para eles”, lamenta um filho de imigrante oriental que cresceu entre os enfeites da China Town brasileira.
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