BRASIL COM MEMÓRIA - Projeto Sivuca chega a Londres em busca de acervo do músico

Um dos maiores gênios da música no século XX terá o seu lugar garantido na memória da cultura brasileira e mundial. Através do PROJETO SIVUCA – MAESTRO DA SANFONA BRASILEIRA o acervo da vida e obra do mestre passou a ser levantado e armazenado, de forma a tornar público o legado de um dos artistas brasileiros mais reconhecidos no Exterior, em virtude do talento ímpar.

Em apenas um ano de atuação, o PROJETO SIVUCA vasculhou arquivos em institutos de pesquisa, entidades de cultura, meios de comunicação e órgãos públicos do Brasil, nos seguintes Estados: Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Distrito Federal, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará.

Agora, o projeto inicia a trajetória de pesquisa no Exterior. O primeiro passo: a Inglaterra, onde Sivuca começou sua carreira internacional, no final da década de 50. Junto com a Caravana Os Brasileiros na Europa, financiada pelo então presidente Juscelino Kubischek, o sanfoneiro se apresentou em Londres, obtendo grande sucesso de público e crítica.

“Existem vários registros históricos sobre esta famosa passagem de Sivuca por Londres. Estou aqui para pesquisá-los e inseri-los no imenso acervo que temos sobre o músico”, revela a filha única do artista, a socióloga e escritora Flavia de Oliveira Barreto, coordenadora deste Projeto, desde 2001.

Atualmente, a socióloga faz o mapeamento dos centros de memória e meios de comunicação a serem visitados em Londres, bem como os amigos e parceiros a serem entrevistados.

O Projeto Sivuca já encontrou centenas de entrevistas e matérias na imprensa brasileira, documentos e objetos pessoais, gravações audiovisuais (televisão, rádio, documentários e filmes), fotografias, imagens diversas (banners, cartazes, folders, entre outros), discos e gravações raras, inclusive em 78 rotações, e partituras inéditas. Um material que estava disperso – às vezes em condições precárias – e que agora está devidamente registrado e catalogado em sistema digital, de forma a garantir a permanência do legado do sanfoneiro às novas gerações.

Nesta primeira incursão do Projeto Sivuca no Exterior, estão previstas visitas a Suécia, Dinamarca e França, países onde o músico morou ou passou longas temporadas. “Meu pai é tão conhecido na Suécia como no Brasil”, lembra a filha, que une o compromisso afetivo à competência profissional na realização deste trabalho, com o qual está envolvida há sete anos. Flavia é pesquisadora da cultura brasileira, professora universitária e pós-doutora em Estudos Culturais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

O objetivo do Projeto é criar mecanismos democráticos para disponilização do acervo ao público, através de exposições, publicações impressas, shows musicais, workshops, entre outros, a partir do apoio de instituições socialmente responsáveis.


Sobre Sivuca



Considerado um dos músicos mais completos do século XX, Sivuca nasceu Severino Dias de Oliveira, em 26 de maio de 1930, na pequena cidade de Itabaiana, interior da Paraíba. Filho de sertanejos, o menino foi o segundo dentre os três irmãos albinos.

A música apresentou-se como alternativa de sobrevivência, diante da impossibilidade de tomar sol durante o trabalho na lavoura, junto com o pai e os demais irmãos, por ter a pele desprotegida de melanina.

Aos cinco anos tocava gaita para as primas da família. Aos nove empunhou uma sanfona pela primeira vez, num dia de Santo Antônio, em 13 de junho de 1939. “Aí eu comecei a tocar e não larguei mais”, relembra Sivuca.

Iniciou o percurso nas festas de sua cidade natal: casamentos, batizados, aniversários... Mudou-se aos 15 anos para Recife. Tocou na Rádio Clube de Pernambuco – onde ganhou o apelido – e na recém-inaugurada Rádio Jornal do Commércio.

Sivuca afirma que deve a Recife sua formação musical, pois foi ainda nesta cidade o encontro com o maestro Guerra-Peixe, com quem passou a ter aulas. Na memória do sanfoneiro, ficou a permanente recomendação do maestro: “música é trabalho”. Em 1955, muda-se para o Rio de Janeiro. Em 1957, é eleito pela imprensa o melhor instrumentista do ano. Tem um programa musical na recém-inaugurada TV Tupi.

Já no fim da década de 50, em virtude de uma lei criada pelo compositor e então deputado federal Humberto Teixeira – de incentivo à divulgação da cultura brasileira no exterior – Sivuca faz uma turnê pela França, Portugal, Bélgica e Itália, juntamente com Trio Iraquitã, Abel Ferreira, entre outros.

Decide permanecer na Europa, de 1958 a 1963, onde grava vários discos e toca com grandes nomes da música na época, com destaque para Edith Piaf.

Retorna ao Brasil e se depara com o ostracismo da sanfona. O cenário musical pareceu-lhe reduzido à bossa-nova e à jovem-guarda, ambos estilos para os quais o instrumento soava antiquado, símbolo de um país oligárquico, rural, oposto aos valores do “Brasil urbano”, que se iniciava.

Sem perspectiva, volta novamente para Recife e acredita ter encerrado a carreira musical. Engano. A convite de Carmem Costa, muda-se para Nova Iorque, a fim de assessorá-la musicalmente. Conhece então a cantora e militante negra Miriam Makeba, com quem passa a fazer turnês pela África, Europa, Ásia e América. Dirige e representa o musical Joy, um protesto contra a ida dos negros para a Guerra do Vietnã.

Toca com grandes nomes do jazz como Harry Belafonte, Julie Andrews, Nelson Riddle, Bette Midler, entre outros, e faz trilhas musicais para filmes.

Nos Estados Unidos, SIVUCA é consagrado um dos mais importantes instrumentistas do mundo. Mas o tempo longe do Brasil não o afastou das raízes musicais, tanto que grandes sucessos do sanfoneiro no forró, como Feira de Mangaio, e no frevo, Folião Ausente, foram compostas em Nova Iorque. “Fiquei ainda mais brasileiro. A brasilidade eu carrego comigo para todo lugar”, diz.

Retorna ao Brasil em 1977, e lança o álbum Ao Vivo no Seis e Meia, junto com Rosinha de Valença, considerado um dos cem melhores álbuns do século XX. Posteriormente, grava dezenas de discos próprios e em parceria com amigos – Rildo Hora, Chiquinho do Acordeon, Toots Thieleman, Erik Petersen, Quinteto Uirapuru, Dominguinhos, Oswaldinho, entre muitos outros.

Na década de 80, inicia a composição de peças para orquestra sinfônica. A primeira foi o Concerto Sinfônico para Asa Branca, uma homenagem a Luiz Gonzaga, o sanfoneiro que, segundo Sivuca, inaugurou uma escola do instrumento no Brasil.

O mestre descreve as orquestrações como o “nascimento depois de uma grande gestação de uma vocação natural (...) o ponto culminante de uma tendência musical”. Um dos objetivos de Sivuca sempre foi o de levar a sanfona à família dos instrumentos para orquestra sinfônica, destacando o sotaque nordestino.

“Toco um instrumento bastardo, mas cheio de recursos harmônicos”, afirma. Sivuca não só fez arranjos e orquestrações para a música clássica como também executou o instrumento em orquestras no Brasil (Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte) e no mundo (Noruega, Dinamarca, Suécia e Alemanha).

Uma das grandes contribuições do mestre foi diminuir a distância entre o erudito e o popular, demonstrando como os estilos dialogam numa mesma circularidade musical. Faleceu em 14 de dezembro de 2006, vítima de um câncer. Deixa um enorme legado musical a ser conhecido e explorado pelas novas gerações.

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