Porto Velho: Uma Viagem à outra Dimensão

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Ayahuasca

A cerimônia para Iemanjá pareceu um lamento a alguém falecido, nossa primeira do dia. No caminho de volta paramos na sede local do culto do Santo Daime. Eles também realizariam uma cerimônia naquela noite em homenagem a um de seus mestres falecido dez anos atrás, e nos convidaram para participar. Como mochileiros gringos e alegres como nós recusaríamos tal convite? Especialmente quando se sabia que ali seria servido ayahuasca.

A cerimônia aconteceu em uma igreja bem clara, toda em branco – exceto pelo chão quadriculado – e sem paredes como que para provar que eles não têm nada a esconder. Todos os participantes estavam vestidos de branco e as mulheres levavam também faixas verdes. Sentamos nas beiradas do Navio da Luz – como preferimos chamar a igreja – enquanto ouvimos horas e horas de cantos ao acompanhamento de maracas caseiras feitas com latas de ervilhas. Sei que isso soa tão entediante quanto qualquer outro culto, mas não quando se toma o chá de ayahuasca. Usada por tribos da Amazônia em rituais espirituais, a bebida é feita a partir da fermentação de folhas e cipós da floresta. A melodia dos chocalhos ajuda a transformar a experiência em um turbilhão de cores e formas que levam ao contato com os espíritos.

Pedi meio copo do líquido verde escuro, uma das bebidas mais amargas que já tomei. Meus colegas me assistiram tomar tudo – as garotas de um lado e os caras do outro, sem poder fazer contato. Sentamos em volta da sala, admirando as formas e a música, viajando para outros mundos, mas não consegui ir mais além do que a próxima dimensão. Estava fascinado com minha viagem assim como ver gerações de ambos os sexos e todas as idades participarem de corpo e alma no culto. O Capitão do Navio da Luz e dois de seus assessores, que juntos somavam uns 200 anos, estavam sentados em poltronas à frente de todos e pareciam estar em sono profundo. Volta e meia eles voltavam ao planeta Terra, com os olhos bem abertos, balançando as pernas e olhando ao redor antes de beberem mais um pouco e partirem novamente. Pessoas idosas estavam sempre por perto para ajudar quem passasse mal.
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