Além da Amazônia - Porque a fama da floresta atrapalha os outros biomas brasileiros

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Paisagens saudáveis

Nem sempre é preciso extrair o homem para conservar a natureza. “É Possível ocupar a Amazônia, a lei permite ocupar parte dela. Mas onde? Como? É preciso ter regras claras, não em escala grande, dizer 20% ou 80%, porque assim se trata tudo uniformemente”, diz Claudio Padua.

E, ao levar em conta a presença e a ação humana em todos os biomas, atentar para a importância dos serviços ambientais para a sobrevivência do próprio homem. Hoje, por exemplo, só a Amazônia conta com o monitoramento sistemático, ano a ano, das mudanças na cobertura vegetal, que resultam em emissões de gases de efeito estufa e contribuem para o aquecimento global – que por sua vez pode alterar as características dos biomas. Apesar do alto custo, Nobre acredita que em cinco anos o Inpe contará com sistema semelhante para cada um dos biomas brasileiros.

“É preciso que haja muita regulação, controle sobre a ação humana na paisagem”, concorda José Augusto Pádua. “O critério não deve ser preservar o puro, mas construir e manter paisagens ecologicamente saudáveis, entrar em um nível mais profundo, estrutural, cuidar da circulação de água, da capacidade de reprodução dos solos e da biodiversidade.”

Com o globo mais quente

A área de um bioma agrega comunidades semelhantes de plantas e animais e é determinada pelo clima e pelas condições do solo. “Para ter floresta tropical é preciso ser quente e ter água no solo durante todo o ano”, explica Carlos Nobre, do Inpe. As savanas tropicais, como o Cerrado, gostam
de calor e longas estações secas. O clima úmido e o relevo diversificado explicam as variações na vegetação da Mata Atlântica – floresta subtropical que originalmente se estendia pela costa, do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul, e entrava para o interior, chegando ao Paraguai e à
Argentina. Floresta tropical seca, a Caatinga se adaptou ao parco regime de chuvas e ao solo pedregoso do Nordeste. A qualidade dos solos é o que determina a região dominada pelo Pampa, ou Campos Sulinos, cujas características climáticas por si só permitiriam a formação da mata subtropical, na visão de alguns especialistas.

Mudanças no clima, portanto, afetam diretamente os biomas – no caso brasileiro, boa parte do território povoado. Daí a grande preocupação com as previsões de aquecimento devido às emissões de gases de efeito estufa pelas atividades humanas. “O bioma amazônico é muito sensível, o Semi-árido também”, informa Nobre, acrescentando que a tendência é parte da floresta transformar-se em savana e da Caatinga tornar-se um semi-deserto. O Cerrado seria beneficiado, podendo estender-se mais ao Sul, mas com o risco de perder biodiversidade. A Mata Atlântica poderia se expandir para regiões mais úmidas do Pampa, enquanto no Nordeste o que resta da floresta subtropical correria o risco de desaparecer.

Certo é que se os outros biomas brasileiros não receberem pelo menos parte da atenção que a Amazônia recebe, o ecossistema e a biodiversidade do Brasil e do mundo estará seriamente ameaçada.
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