
Além da Amazônia - Porque a fama da floresta atrapalha os outros biomas brasileiros
Gado e desmatamento
Relevante, na visão do historiador, é perceber que o homem molda a natureza, mas também é moldado por ela, e, assim, forja-se um território. Assim é a cultura pecuária que percorre o Brasil.
Trazido pelos portugueses, junto a galinhas, cavalos, porcos e outros animais desconhecidos da natureza local, o boi se transformou em “uma arma ecológica de ocupação do território”, segundo Pádua. O animal não gosta da floresta, cujo solo e o ambiente fechado dificultam a movimentação, mas de ecossistemas abertos, com menor densidade arbórea. E assim os colonizadores tocaram o gado para os cerrados e os campos, dando início a muito do que hoje se conhece das culturas regionais. Mesmo na Amazônia, a pecuária tradicional só foi possível em áreas abertas como os campos naturais do Marajó e de Roraima. Apenas recentemente o homem passou a fazer
o que nunca fez antes: retirar a floresta para introduzir o gado.
Ilustres desconhecidos
Apontada como razão para conservar este ou aquele bioma, a biodiversidade é comum às regiões tropicais, mas elevada a potências quando se trata do Brasil. “O Cerrado (no Brasil central) é a savana mais rica em biodiversidade e biomassa do mundo, muito mais do que as africanas. A Caatinga (no Nordeste) é a única região que tem a expressão da biodiversidade semi-árida tropical”, cita Nobre.
A Caatinga é o bioma menos conhecido do pais, seguida do Pantanal. A Amazônia domina as pesquisas em curso no País. No total, 434 grupos descrevem sua linha como referente à Amazônia, enquanto 173 dedicam-se ao Cerrado, 101 à Mata Atlântica, 49 ao Pantanal, 45 à Caatinga e 2 aos Campos Sulinos.
Se dependesse só de ambientes selvagens, porém, a tão desejada biodiversidade talvez tivesse desaparecido, já que três quartos da superfície terrestre é ocupada pelo homem. Entretanto, estudos recentes revelam que mesmo na fragmentada paisagem da Mata Atlântica, se preservadas porções de mata nativa em uma matriz heterogênea de ambientes manejados pelo homem, é possível conservar boa parte da biodiversidade.