
Além da Amazônia - A floresta mais famosa do mundo é o ecossistema menos ameaçado do Brasil
por Flavia Pardini
Amazônia está em todo lugar: nas manchetes dos jornais, na pauta de reuniões ministeriais, no centro de negociações internacionais, na boca do povo. Difícil localizar exatamente de onde vem o fascínio da grande floresta, se da percepção estrangeira de que se trata de um ativo da humanidade, se do fetiche que sua biodiversidade exerce sobre os homens. Fato é que a Amazônia concentra população pequena se comparada à que se espalha pelos outros seis biomas, muitas vezes alheia à influência desses ecossistemas na identidade brasileira.
Muito além da Amazônia, o Brasil também é Cerrado, Caatinga, Pantanal, Pampa, Mata Atlântica e uma extensa Zona Costeira, embora as agruras de boa parte desses biomas, resultado de séculos de ocupação humana, pouco apareçam na mídia. E não são poucas: do desmatamento acelerado do Cerrado – estima- se que o ritmo seja duas vezes mais rápido do que na Amazônia – à transformação dos Campos Sulinos em monoculturas de eucalipto, passando pela desertificação da Caatinga, o assoreamento dos rios do Pantanal e a ocupação desordenada do litoral.
A urgência, entretanto, recai sobre o que é percebido como “puro”. “Historicamente, quando se soma tudo o que foi feito, o bioma menos alterado é a Amazônia”, diz Carlos Nobre, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Tanto que, para o público internacional, a Amazônia representa o arquétipo do “selvagem”, avalia Erle Ellis, pesquisador da Universidade de Maryland, Baltimore County, e autor de um mapa dos biomas do mundo que leva em conta as alterações feitas pelo homem.
“Claro que há pesquisadores internacionais que conhecem o Brasil tão bem quanto os brasileiros, mas em geral os doadores de recursos das grandes ONGs só vêem a Amazônia. Naturalmente, canalizam os recursos para lá”, opina o biólogo Claudio Valladares Padua
“O carisma da floresta tropical é merecido, mas também é construído”, afirma José Augusto Pádua, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “A imponência estética da floresta
chama a atenção das pessoas e há também a questão da biodiversidade. Mas ela não deve ser um fetiche, não se deve fazer uma hierarquia dos biomas na qual a quantidade de biodiversidade determina se é importante ou não.”