LENÇÓIS MARANHENSES

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Um incrível deserto cheio d'água
Texto: Gabriel Silvestre

Quando comecei a ler mais sobre o Parque dos Lençóis Maranhenses, fiquei bem confuso. A começar pelo nome do lugar que, para mim, evocava vales e montanhas verdejantes entrecortadas por rios e povoados por animais silvestres. Nada pode ser mais longe do que é o lugar. Na verdade,. trata-se de um deserto, o único no Brasil. Se é assim, deve ser então um ambiente inóspito e árido, pensei. Bom, os livros me diziam que, em Lençóis, chove em média 1.600 mm anuais, 320 vezes mais que no famoso Saara, e que os oásis se multiplicam aos milhares. Quer saber? Desisti de tentar entender e arrumei minhas malas para conferir com os meus próprios olhos.

Para se visitar o parque, o caminho mais comum é partir de São Luís, a capital do Maranhão, e rodar os 260 quilômetros até uma cidade chamada Barreirinhas pela recém-concluída estrada que tornou o acesso ao local muito mais rápido. O Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses foi criado por lei federal, em 1981, e compreende uma área do tamanho do município de São Paulo. Parada no tempo, a região teve uma breve fase de prosperidade no início dos anos 70, quando a Petrobras iniciou a prospecção de petróleo e gás natural, sem muito sucesso, por debaixo do solo arenoso. Mas, como a maior riqueza dos Lençóis sempre foi mesmo seu cenário surreal, o turismo acabou deslanchando de vez nos anos 90 e é hoje a principal força econômica da região.

Invariavelmente, os Lençóis são apresentados por suas tomadas aéreas, onde a sucessão de lagoas e dunas compõem um cenário inusitado que parece se estender infinitamente. Mas quem vai ao local acaba vendo por si mesmo que as fotografias dão apenas uma pequena idéia da dimensão. “De outro mundo”, são as palavras da arqueóloga mexicana Geraldine Cornejo, que realizou um sobrevôo de meia hora. “Se visto a pé já nos encantamos com as lagoas, só de cima apreciamos milhares delas formando uma paisagem sem fim”, completa ela. Os rios da região, como o Preguiças e o Parnaíba, acumulam ao longo de seu percurso um grande volume de areia e, ao desembocarem no mar, acabam depositando-a na faixa litorânea. Ao recuar, a maré expõe essa areia ao sol. Graças aos ventos fortíssimos, ela acaba sendo lançada de volta para até 50 quilômetros adentro e formando dunas que chegam a 20 metros de altura. As chuvas que se concentram no primeiro semestre acabam formando inúmeros poços d’água, ao alagarem-se e se conectarem com os rios. Nesses poços até peixes nadam. Esse curioso ciclo da natureza é o responsável pela composição do espetacular ecossistema que se esparrama ao longo de 155 mil hectares.

Para ter o primero gostinho dos Lençóis optei por um passeio de jipe, atravessando um trecho do deserto e visitando algumas de suas lagoas. Depois de sacolejar duna acima e abaixo, estacionamos o veículo, e o grupo seguiu o guia em uma trilha em direção à Lagoa Azul. Vimo-nos insignificantes diante da vastidão branca e ondulada e, logo à frente, num oásis, uma lagoa de águas transparentes. A Lagoa Esperança é outra parada obrigatória, de incomparável beleza, que se mantém mesmo no período de seca.
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