
Recife: Veneza sem Gôndolas
águas furtas
Nosso pequeno catamarã segue a subir o rio em direção ao que hoje são as vielas de Recife. Muito da história do Brasil pode ser contada ao se percorrer o Capibaribe, em suas margens estiveram colonizadores holandeses que durante 24 anos ocuparam a região e foram os responsáveis pela construção da primeira ponte de grande porte do Brasil em 1644. Infelizmente, porém, saqueadores não são algo do passado, embora hoje em dia se interessem por coisas, digamos, menos nobres. A ponte Paulo Guerra por exemplo, teve suas 17 luminárias importadas da Bélgica roubadas pouco antes de sua reinauguração em julho de 2006. Não que isso fosse novidade, algo em torno de R$250 mil em lâmpadas já havia sumido da ponte Maurício de Nassau, sem contar que na 6 de Março alguém conseguiu levar para casa 1.200 metros de cabo da estrutura da ponta.
A seguir passamos pela Rua Aurora, assim chamada por estar voltada diretamente ao leste e receber os primeiros raios do amanhecer. De longe, alguns casarões coloniais impressionam e parecem ter sido recentemente restaurados, ou pelo menos acabaram de receber uma mão de tinta. A esta altura da noite, a Aurora pertence a outros personagens, como o do livro de Hecht, que conta a história de um menino de rua que se torna um travesti e faz dessa rua seu reino.
A primeira parte do passeio está próxima de terminar, mas ainda tem muita história para contar. Mais à frente outra escultura bizarra se impõe, um pouco difícil de se decifrar à primeira vista, mas trata-se de um caranguejo. O gigante de metal é uma homenagem a Chico Science, que morreu perto dali em um acidente de automóvel. Próximo está uma escola de ensino público que educou uma santíssima trindade de escritores: Clarice Lispector, Ariano Suassuna e João Cabral de Melo Neto.
Em breve será tempo de dar meia volta e retornar ao ponto inicial. Quem melhor que o próprio João Cabral de Melo Neto para narrar a última parte da viagem?
"Rio lento de várzea,
vou agora ainda mais lento,
que agora minhas águas
de tanta lama me pesam.
Vou agora tão lento,
porque é pesado o que carrego:
vou carregado de ilhas
recolhidas enquanto desço"
(Morte e Vida Severina, 1954)