Recife: Veneza sem Gôndolas

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Veneza Tropical

A capital do estado de Pernambuco situa-se onde o rio Capibaribe se encontra com o Beberibe e juntos seguem em direção ao mar. A parte histórica da cidade, o bairro de Recife Antigo, é literalmente uma ilha em si, uma das três da região central. Ao total são 39 pontes pela cidade que rendeu o apelido de Veneza Brasileira.

No entanto, poucos visitantes se aventuram pelos rios de Recife. Certamente não há gôndolas. Os mais interessados na parte histórica preferem as ladeiras da vizinha cidade de Olinda. Na capital, os bons hotéis se concentram na região da praia da Boa Viagem, bem próxima do aeroporto e do principal shopping center, mas sem nenhum rio à vista.

Quando soube que Recife tinha passeios de barco semelhantes ao que fiz pelo Sena em Paris e o Tâmisa em Londres, não pensei duas vezes e resolvi descobrir mais sobre os ‘canais’ recifenses. Optei pelo passeio noturno e fiz de Recife minha própria ‘Cidade da Luz’ por uma noite.

Assim como outros passeios de Recife, o ponto de encontro do tour fica no Marco Zero da cidade. Ao longo da costa pode-se ver vários recifes que atuam como barreiras naturais, e próximo ao Marco Zero, sobre um deles, foi construído um reforço de concreto para proteger o antigo porto.

Sobre ele fica o Parque das Esculturas, onde se destaca uma imponente escultura fálica de 32 metros, a Coluna de Cristal do nativo Francisco Brennand. O mais interessante sobre a obra é a história de seu making-off, responsável por um dos mais apimentados escândalos políticos da cidade.

O comitê responsável pela encomenda não poderia esperar algo muito diferente quando convidaram um artista internacionalmente conhecido por suas esculturas eróticas, mas assim que Brennand revelou sua obra, todos se chocaram e ninguém quis ser o estraga-prazeres. Um jornalista local insinuou que a encomenda tinha sido feita pela esposa do prefeito.

Afim de defender a honra da primeira-dama, o prefeito invadiu a redação do jornal e ameaçou o repórter com um revólver apontado a sua cabeça. Logo a poeira abaixou e a prefeitura mudou de opinião. ‘O prefeito tem culhão, a cidade terá sua ereção’, ironizou Tobias Hecht em seu livro After Life: An Ethnographic Novel.

Após visitar a obra de Brennand, passamos calmamente pelo velho porto (a construção do novo porto, vários quilômetros mais ao sul, é apontada como a culpada por forçar a migração de tubarões em direção à praia da Boa Viagem, mas isso é outra história), mas hoje só se vê dois navios no cais. Um deles se prepara para uma longa viagem de mais de 500 quilômetros rumo à Fernando de Noronha no Oceano Atlântico, o santuário natural e principal destino eco-turístico do país. O barco leva suprimentos para a ilha e traz de volta todo o lixo produzido para o continente. O outro navio é uma embarcação soviética que foi abandonada décadas atrás por não pagar suas taxas.
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