JD#56 RECIFE: VENEZA SEM GÔNDOLAS

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O rio Capiberibe, no Recife, é venerado por músicos poetas e escritores
Texto: Bill Hinchberger
Fotos: Bruno von Söhsten


Para um lugar normalmente vendido para os turistas apenas como cidade de sol e praia, os filhos pródigos de Recife preferem destacar a beleza (assim como os problemas) de seus rios e pontes.

“Rios, Pontes e Overdrives” é uma das principais canções do legado deixado pelo visionário do movimento manguebit, Chico Science (e sua banda, Nação Zumbi), que faleceu há mais de uma década. Lenine, outro recifense, dá novo sentido à poesia concreta em sua canção intitulada simplesmente “A Ponte”, composta em parceria com Lula Queiroga: A ponte não é de concreto; não é de ferro/ Não é de cimento/ A ponte é até onde vai o meu pensamento. O veterano grupo folclórico Quinteto Violado tem em seu repertório uma homenagem ao principal rio da cidade: Certamente preferem hotéis do fiz resolvi noturno no Afoga os dias do calendário/ Naufraga os homens no salário/ Vai cheio entre mãos vazias/ O Rio Capibaribe.

De forma mais épica, João Cabral de Melo Neto narra a saga do pobre retirante sertanejo que navega pelas águas do Capibaribe em busca de uma vida melhor na cidade no clássico “Morte e Vida Severina”.

veneza tropical | A capital do estado de Pernambuco situa-se onde o rio Capibaribe se encontra com o Beberibe e juntos seguem em direção ao mar. A parte histórica da cidade, o bairro de Recife Antigo, é literalmente uma ilha em si, uma das três da região central. Ao total são 39 pontes pela cidade que rendeu o apelido de Veneza Brasileira.

No entanto, poucos visitantes se aventuram pelos rios de Recife. Certamente não há gôndolas. Os mais interessados na parte histórica preferem as ladeiras da vizinha cidade de Olinda. Na capital, os bons hotéis se concentram na região da praia da Boa Viagem, bem próxima do aeroporto e do principal shopping center, mas sem nenhum rio à vista.

Quando soube que Recife tinha passeios de barco semelhantes ao que fiz pelo Sena em Paris e o Tâmisa em Londres, não pensei duas vezes e resolvi descobrir mais sobre os ‘canais’ recifenses. Optei pelo passeio noturno e fiz de Recife minha própria ‘Cidade da Luz’ por uma noite.

Assim como outros passeios de Recife, o ponto de encontro do tour fica no Marco Zero da cidade. Ao longo da costa pode-se ver vários recifes que atuam como barreiras naturais, e próximo ao Marco Zero, sobre um deles, foi construído um reforço de concreto para proteger o antigo porto.

Sobre ele fica o Parque das Esculturas, onde se destaca uma imponente escultura fálica de 32 metros, a Coluna de Cristal do nativo Francisco Brennand. O mais interessante sobre a obra é a história de seu making-off, responsável por um dos mais apimentados escândalos políticos da cidade.

O comitê responsável pela encomenda não poderia esperar algo muito diferente quando convidaram um artista internacionalmente conhecido por suas esculturas eróticas, mas assim que Brennand revelou sua obra, todos se chocaram e ninguém quis ser o estraga-prazeres. Um jornalista local insinuou que a encomenda tinha sido feita pela esposa do prefeito.
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