
Digital Democracia
Hoje o CDI está em quase todas as regiões do Brasil e em mais oito países. Como se deu esse crescimento?
Na festa de inauguração vieram as pessoas da comunidade e da imprensa. Com o destaque na mídia, voluntários começaram a me procurar. Como eram mais de 70, pensei que não precisava de todos para ajudar em uma única escola. Daí veio o outro pensamento: vamos criar cinco escolas. E assim surgiu a primeira ONG na área de inclusão digital na América Latina. Agora já chegamos a Chile, Argentina, México, Uruguai, Colômbia, EUA, Japão e África do Sul.
Quais são os próximos passos do CDI?
Uma das visões para a nossa rede é a conexão com a internet em todas as nossas escolas (hoje 41% delas estão conectadas com banda larga). Queremos integrá-las em rede, construindo um espaço virtual em que os alunos possam trocar experiências. Queremos também colocar um educador em cada comunidade. Mas para fazer esse upgrade técnico e pedagógico precisamos de R$ 30 mil por ano, mais ou menos £8 mil, para que o desenvolvimento seja de forma concreta.
Como funcionam os CDIs fora do Brasil?
Nossa metodologia é única para toda a rede. O que é fundamental é a flexibilidade, que garante adaptação para cada cultura. Os desafios são locais, mas o foco é o mesmo. Hoje estamos em aldeias indígenas, em comunidades rurais, em ilhas na Amazônia, penitenciárias, hospital psiquiátrico. Não temos uma escola igual a outra, mas temos uma metodologia flexível que se adapta a todos esses centros de ensino.
Como é o terceiro setor no Brasil em comparação ao da Inglaterra?
É uma comparação interessante. A Inglaterra tem desafios sociais muito menores do que o Brasil. Nossa miséria é muito grande. Mas é por esse motivo que temos um empreendedorismo social maior do que na Europa. Somos, com a Índia e os EUA, os três maiores paises em número de empreendedores sociais. Por um descrédito na classe política, o jovem vai ser empreendedor social para fazer a diferença. Temos no Brasil mais de 275 mil ONGs. Já o processo de captação de recursos é mais favorável na Inglaterra do que no Brasil porque aqui é muito mais recente.
Como funciona sua relação com o Governo Lula?
É como a de qualquer outro brasileiro, de admiração, de ter elegido um Presidente com o qual o povo pode sonhar com um governo melhor. Mas essa esperança começa a dar lugar à decepção. O setor social no Brasil é muito critico. A sociedade civil é chamada para conversar, mas não para executar. Quando tive a oportunidade de estar com o Presidente, disse que ele foi o primeiro governante a inserir a bandeira da inclusão digital, mas as iniciativas do Governo Federal precisam de uma coordenação maior. Há muito desperdício de energia e recursos financeiros. Foi uma conversa bastante interessante, e de lá para cá muita coisa mudou para melhor. Mas a prática ainda é muito assistencialista e isso norteia a política da área social como um todo. Infelizmente ainda não tivemos solução.
Críticos dizem que o CDI é um trabalho limitado, pois apenas ensina informática, sem organização comunitária por trás. O que diz sobre isso?
O CDI nunca foi só informática. É informática e cidadania. As pessoas da própria comunidade trabalham na escola. O coração do trabalho é a proposta político-pedagógica. No Rio Grande do Norte os alunos identificaram um desafio: convencer a população a parar de jogar lixo no rio de uma das comunidades. Então usaram o editor de texto para criar folhetos que foram usados numa campanha e, depois de quatro meses, 100% da comunidade parou de jogar lixo no rio. Fazemos muito mais do que dar o peixe: ensinamos a pescar.
Você foi selecionado pela CNN para participar da edição 2006 do projeto Principal Voices. O que isso representa para o CDI?
Nós temos mais de 37 prêmios pessoais e institucionais. E eles são importantes para abrir portas. Nos deixam felizes por uma semana, depois voltamos ao normal. A realização está no dia-a-dia, na alegria constante, no brilho no olhar. Esse prêmio é particularmente muito importante por conta do imenso potencial de difusão da nossa causa. O interesse é levar para essa mesa redonda nossa bandeira: inclusão digital pode promover inclusão social. Essa visão de que através da tecnologia podemos mudar vidas e transformar a sociedade.
Por Fernanda Zambrotti