
BRASÍLIA TEIMOSA - Exposição em Londres retrata a comunidade mais teimosa do Recife
Assim, diante da câmera, surgiam pouco a pouco os personagens da série “Brasília Teimosa” – sujeitos que não eram exatamente flagrados e que de modo algum estavam alheios à lente que eu lhes apontava. Para mim, que tenho uma formação dividida entre o foto-jornalismo e a fotografia de publicidade – pólos aparentemente opostos – o resultado está em algum lugar entre uma coisa e outra, entre as narrativas ficcionais das novelas brasileiras e os registros “flagrantes” das celebridades das revistas de fofoca.
Neste ensaio (que será exposto no ICA), meu primeiro trabalho autoral, os banhistas da praia do “Buraco da Veia” são claramente reais, mas não prestam contas de um mundo concreto. Antes disso, parecem atuar num cenário de estúdio e naquelas frações de segundo tenho certeza de que estavam encenando a parte mais alegre de suas vidas, exagerando seus desejos para torná-los visíveis.
Numa parte das imagens, esses “atores” e “atrizes” aparecem em situações de assumida despreocupação com quaisquer normas sociais de comportamento. Isso me interessava bastante. E foi assim que encontrei Dandara Mel, travesti que toma sol para dourar os pelos do corpo ao lado de suas jovens sobrinhas porque é considerada “a pessoa mais responsável da família”; ou as irmãs Eliete e Eliana, que usam biquínis decotados com naturalidade e não se importam com as eventuais celulites do próprio corpo; ou ainda Cenira, que conheci dançando na porta de sua própria casa ao som do brega que explodia no mais alto volume do sound system do carro de seus amigos.