
Mudar o mundo não, mudar as pessoas
A primeira coisa que ouvimos quando entramos na casa/escritório de Seu Jorge em Pinheiros, em São Paulo, é uma música de Justin Timberlake saindo a todo volume das caixas de som. Talvez não exatamente o que esperávamos de um dos principais representantes da música brasileira no exterior, mas sem dúvida uma demonstração de bom gosto - ou, no mínimo, de bom conhecimento do pop mundial.
Ele está de pé, em frente às caixas de som, improvisando notas em uma flauta sobre a harmonia da música. Estamos na garagem da casa de três andares, que foi transformada em espaço para se ouvir e fazer música, com muitos instrumentos musicais espalhados pelo chão, uma geladeira da Brahma em um canto (ele foi garoto propaganda da marca de cerveja há alguns anos) e quadros de shows que ele fez ao redor do planeta espalhados pela parede.
São três horas de uma tarde ensolarada de sábado e estamos ali para mediar um papo entre Seu Jorge e José Junior, do AfroReggae. Jorge e a banda de Junior estão com uma turnê pelo Reino Unido marcada para novembro e essa seria a oportunidade perfeita para ouvirmos o que ambos tinham a falar - para eles mesmos e para nós.
Antes do horário marcado para ligar para o Junior, aproveitamos para conversar com Jorge e saber das novidades - e, é claro, saber as impressões sobre sua viagem à Londres em maio do ano passado, que acabou resultando em um mal-estar generalizado quando ele foi barrado injustamente pela imigração. Chegaremos lá.
Jorge havia chegado do Rio no dia anterior e partiria para Nova York no dia seguinte. Aquele era o dia perfeito para descansar um pouco em casa, ouvir música - e conversar com a Jungle. Entre papos sobre seu disco novo ("América Brasil", sendo gravado), jazz (ele é fã do guitarrista John Abercrombie) e sua filha (que tem três anos e já tira algumas notas do trompete), tomamos suco (de maracujá, delicioso) e ouvimos vinis e mp3s (além de Abercrombie, ele nos mostrou um disco de JackDeJohnette).
Quando finalmente tocamos no assunto Reino Unido, ele se mexe desconfortavelmente na cadeira. Mas não foge do assunto. Com sua voz grave e calma, já diz, de cara: "A Inglaterra não está legal, sabe? As pessoas não são felizes. Elas estão com medo da violência, do terror. Aqui nós temos outro tipo de problemas, mas não temos essa neurose. Pra lá, agora, só vou pelo público mesmo."
Falando em problemas, os daqui e os de lá, qual será a solução? Será que a música pode mudar o mundo? "O mundo não, mas pode mudar as pessoas."
E isso já é o suficiente.
A seguir, o papo entre Jorge e Junior.
Seu Jorge: Estou muito interessado no povo brasileiro. E vejo que você também. Não só porque aponta uma linguagem nova. Você é um líder e um irmão mais velho pra todos esses caras. Então me interessa pedir conselho pra você, no sentido emocional. Você pratica seu ofício, sabe lidar com emoções e com as expectativas das pessoas. Você está muito capacitado a me responder certas perguntas. Por exemplo, você acredita em uma nova geração como renovação de uma consciência política? É possível obter o desenvolvimento não só de alguns indivíduos, mas do povo brasileiro em geral?
José Júnior: O Brasil é mundialmente conhecido pelo entretenimento. Futebol, música, carnaval etc. E quem mais produz isso são as comunidades populares. Todo mundo ganha dinheiro com isso, menos o protagonista, menos o epicentro de onde saem essas pessoas. Então, eu acho que o dinheiro precisa circular nesses lugares, as pessoas precisam ter acesso à educação. Parece clichê né? Pois é real, a base de tudo é educação. Por exemplo, de onde saiu o Seu Jorge? Do Gogó da Ema. O que o Gogó da Ema ganhou com isso? A principio, só alegria. Mas, de tudo que a "indústria Seu Jorge" gerou, o Gogó da Ema não viu nada. Concorda?
SJ: Concordo em gênero, número, tamanho.
JJ: Todo mundo ganha com teu sucesso, até mais que você mesmo. Quem ganha é gravadora, empresário.
Eu acho que a gente tem que fazer o dinheiro circular nessas comunidades. Outra coisa: grupos como o AfroReggae, caras feito Seu Jorge, acabam fortalecendo o estereótipo de que na periferia, para dar certo, só sendo jogador de futebol ou músico. Acho que a gente tem que começar a abrir novas frentes. É importante pra fortalecer a auto-estima da comunidade.
SJ: Tanto é assim que quem mora no Gogó da Ema sonha em sair dali, achando que lá não vai ter futuro. Eu cresci com a idéia de sair dali.
JJ: O Gogó é conhecido por causa de um presídio, tinha o maior índice de assassinato do mundo.
SJ: Eu tinha 16 anos e trabalhava no Banco Nacional, usava uniforme. Onde eu morava era barro, tinha que botar saco plástico no pé pra não sujar. Mas sempre sujava, chegava no serviço com a barra suja. Daí quando você vai falar com alguém, é com aquela inferioridade de quem sai de um lugar humilde.
Nem se dirige à pessoa pra não incomodar. E aquilo fica muito mais visível quando o cara vê a barra suja e fala: "Pô, mora mal, hein?" Eu não morava mal, mas era longe, passava por esse constrangimento. Não entendia porque era assim, só fui entender depois: porque os políticos não fazem nada. A gente fica assim meio inerte, mas eu acredito na essência do povo brasileiro. E quando o cara que não teve educação induz seu filho a ser juiz? São pessoas que têm auto-estima de ferro, confiam na habilidade que têm. É dessa instrumentação que eu estou buscando aprender e conceber, porque eu percebo que o meio é uma forma de criar um bom produto. Quando eu fazia teatro, era uma companhia aberta pra qualquer pessoa, eu estava com pessoas com uma boa educação intelectual. Eu vinha com complexo inferior, de negro, pobre, de não ter especialização, de ser reconhecido marginal, por viver marginalizado, aquela coisa toda. Cheguei lá com 23 anos, já tinha visto tudo, já tinha passado por várias coisas. E dei de cara com um convívio incrível.
JJ: Acho que a gente mesmo acaba ajudando a fortalecer a idéia de que só tem traficante na favela, mas na favela não tem traficante, tem vendedor de droga. O traficante mesmo nunca botou o pé na favela. Os piores bandidos na favela são os políticos, que transformam o lugar em curral eleitoral. Tipo o coronelismo, que está diminuindo no nordeste, mas crescendo na favela. Tem um interesse muito grande por trás. E o pior é quando a gente ouve que o problema é segurança pública. Mas o problema não é de segurança! Polícia na rua não resolve nada. A parada é social, de oportunidade, que realmente é muito difícil. O mundo hoje é uma grande favela. África, Ásia, leste europeu, qualquer lugar tem discriminação étnica, racial. E ao mesmo tempo nunca se produziu tanto conhecimento como agora. Mas a coisa é muito mal dirigida. Como negro que deu certo, você, Seu Jorge, acaba fechando uma porrada de porta pra você mesmo. Hoje, sem você querer, pessoal te elegeu como uma figura que tem uma responsabilidade. E nove anos atrás ninguém sabia que você existia.
SJ: E se sabiam, fingiam que eu não existia. Quando eu fui fazer teatro, eu tinha uma ideologia. Queria fazer amigos, não queria ser o bonitão. Queria que neguinho olhasse no meu olho e visse o que eu estava pensando e não se assustasse. A música me deu essa oportunidade. O cara com um violão debaixo do braço não arruma problema pra ninguém. É a luta eterna que a gente vai ter. Independentemente da negritude, da brasilidade, vamos lutar por justiça e respeito, e aí já passou a ser a nível continental. Estou interessado em discutir, mas não quero ser ufanista. Gosto de fazer música, mas acho que minha vida está tomando outro sentido.
Cientistas do mundo todo propõem que o Brasil tem uma possibilidade de 20 anos de desenvolvimento. Ou seja, minhas filhas poderão ter uma sociedade melhor já, não queremos perder essa molecada pra fome.
Olhando Big Mac na TV e querendo vender chiclete com cinco anos de idade pra dar um jeito de comprar. Isso tem que acabar. No mundo inteiro você não vê moleque jogando limão no sinal , como vê aqui.
Estamos com um problema sério. Temos que criar vontade política na molecada.
A gente precisa transformar essas coisas. A gente precisa de objetivos mais enérgicos. O Ministério do Povo deveria existir. Presidente seria o cara responsável pelo Estado, que cuidaria do povo, daria satisfação. Mas não rola, essa não é a idéia do presidente, que agora cuida das relações exteriores, parlamentares... Nós não temos quem nos dê satisfação. Eu pago caríssimo, então também sou dono desse país. E sinto que os caras que trabalham pra mim, os meus empregados, lá de cima, não são bons. O presidente, todos esses caras com salários pagos por nós, são empregados de quinta categoria. A gente não consegue controlar esse bando de vagabundos. São todos vagabundos, que falam pra caramba e não apresentam o serviço que estão fazendo. E a gente está trabalhando, está produzindo recursos pros caras administrarem nossas coisas, nossas escolas, nossa cultura, nossa segurança. Então você não acha que está na hora de criar não um Estado independente, a independência do povo?
JJ: Concordo, mas como fazer isso? Hoje as ongs e movimentos sociais acabam fazendo isso. Mas é difícil reverter esse quadro com o governo. Com o Ministério do Povo, como você disse, por exemplo, também não daria certo, porque com certeza o cara lá no comando não seria do povo. Até como o presidente hoje é do povo mas não se assume como povo. Seria mais um político fazendo suas manobras.
SJ: Mas fora de lá, independente. O problema é liderança. Procuro um líder.
JJ: Aqui no Rio a gente criou o F4, que é mais ou menos o que você está falando. E tem o AfroReggae, o Nós do Morro, essas organizações que estão nas quatro regiões da cidade como um consórcio social, pra discutir a os problemas das favelas. Mais do que discutir: encontrar maneiras de fazer negócio, fazer com que o dinheiro chegue, criar a infra-estrutura, trazer pessoas do poder, da mídia. Trazer o público para discutir, já que somos a maioria. Para tentar mudar isso tudo que está aí. Tem coisa boa acontecendo no Brasil, mas não tem visibilidade. Existe uma rede não oficial tentando mudar. Em Palmas, no Ceará, um cara criou uma moeda chamada palma. É uma moeda que dá crediário para as pessoas. Cada real vale uma palma. Mas, para usar essa moeda, você precisa levar um conhecido, que não é fiador. Tem um ciclo em que o grau de inadimplência é muito pequeno. É baseado num ciclo de cooperação. Os caras criaram um modelo de gestão financeira que ganhou prêmio de um banco da Suíça. Por que não é exportado? Por que não tem interesse?
Outra coisa, o Nós do Morro, por exemplo. Independente de ser da favela, é um dos maiores grupos de teatro do Brasil. Agora está com visibilidade, parece que foi criado no ano passado. E o grupo existe há mais de 20 anos! Parece que antes de Cidade de Deus os caras não existiam. É essa invisibilidade que a gente precisa começar a superar. Acho que tínhamos que fazer uma ação aqui no Rio. Em janeiro a gente comemora 14 anos de AfroReggae, vamos fazer ações na cidade inteira, até no morro do Alemão.
SJ: Eu estava com uma idéia de ficar sem tocar no Rio por um tempo, mas se for pra tocar no complexo do Alemão eu vou. Daí eu quero ver se playboy me considera mesmo e atravessa o túnel pra ir no show.
JJ: Eu acho que vai. Olha só, o complexo do Alemão são 11 favelas, 170 mil pessoas.
SJ: Pra qualquer coisa que você me chamar nesse esquema eu vou. Complexo, baixada, Gogó... Qualquer coisa pra lá de Tijuca pode me chamar. Zona sul não vou tocar, mas favela eu vou amarradão, levo minha turma, boto minha estrutura. O violão tem que voltar a tocar na favela. Quem me deu esse toque foi o Mano Brown.
Ele estava falando que na favela tem muito grafiteiro, MC e tal, mas nada de Jorge Ben. Ele falou: você é o único cara que pode fazer neguinho na favela voltar a tocar violão. E eu fiquei com isso na cabeça. Fico a fim de tentar, de influenciar um ou dois a tocarem violão, fazer o som deles. No Rio ainda tem violão na favela, mas aqui em São Paulo não tem. Aqui é rap. E o Mano bota pilha de ter mais música brasileira também. Mais samba, cavaco. E eu estou de acordo.
JJ: Em 2001 a gente criou um projeto chamado Conexões Urbanas. Todo mundo tocou: Caetano, Gil etc. E o projeto vai voltar no ano que vem, vão ser quatro shows. Vigário, Parada de Lucas, Alemão e Cantagalo.
Acho que você tinha que fazer no Alemão. O maior poder bélico do Rio é lá, e a gente tem feito um trabalho pra tirar galera do crime, mostrar que favela não é só bandido.
SJ: Eu me amarro, é super importante pra mim, como filosofia de vida. Eu venho de lá e não dou nada de volta, mas meu povo precisa. O povo de comunidade também tem que escutar música, é uma maneira de agente integrar a cidade.
Por Ronaldo Evangelista