No ritmo da marchinha
Paraitinga oferece um carnaval tão tradicional quanto alternativo
É em uma cidadezinha a caminho do litoral, cravada na cadeia de montanhas da Serra do Mar, que acontece uma das festas mais surpreendentes e divertidas do estado de São Paulo. Todo ano a bucólica e pacata São Luis do Paraitinga recebe uma multidão de foliões que ferve nos quatro dias de carnaval.
O ritmo que atrai os cerca de 100 mil turistas é muito peculiar. Esqueça os batuques do axé ou a cadência do samba: o embalo que faz o povo emendar o dia na noite, mesmo debaixo da chuva que todo o ano cai durante a festança é o das marchinhas.
A praça mais conhecida da cidade é tomada por um turbilhão de gente vinda de todo canto do Brasil. O destino ainda é desconhecido pelos estrangeiros, mas quem foi convidado a curtir o carnaval de São Luis não esquece: “Muito vibrante e original. Como o povo brasileiroâ€, decreta a holandesa Suzanne Reuling.
O cenário da cidadezinha de pouco mais de 10 mil habitantes data da época colonial, quando os tropeiros carregados de ouro que vinham do norte de Minas Gerais. Essa história é ainda visÃvel nos 90 casarões tombados pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, em toda a cidade - que viram camarotes lotados nos dias de carnaval.
Há muito o que ver e fazer em São Luis do Paraitinga. Acompanhar os blocos formados por moradores exige fôlego e é sempre engraçado. O compasso apressado das marchinhas é contagiante e as letras são inusitadas. O desfile não pára, é bloco atrás de bloco: Orêia Seca, Merendão, Pai do Troço e outros tantos vão puxando a massa. O mais famoso deles é o Juca Teles, fundado pelo artesão e compositor Benito Campos em 1984.
Pular carnaval é hoje quase obrigatório entre os habitantes de São Luis, mas nem sempre foi assim. Nos anos de 1910, logo que o carnaval começava a ganhar as ruas da cidade, o padre italiano Monsenhor Ignácio Gióia ameaçou os fiéis usando uma estrategia dos infernos. Literalmente. Aproveitando a forte vocação católica de toda a região, o padre declarou que quem pulasse carnaval teria que conviver com o rabo e chifre que brotariam como punição. A ameaça colou, e a festa foi suspensa na cidade por muitos anos. E, apesar de ter banido a farra por um bom tempo, o personagem do passado é hoje nome de rua, por onde desfilam alegremente os carnavalescos.
Lei é Lei
Nos anos 80, São Luis do Paraitinga foi exibida em rede nacional de televisão como a única cidade do paÃs onde não havia carnaval. Foi um choque para os telespectadores, e o fato logo foi transformado em grande piada nacional. É que a crendice do povo era mais forte e a idéia de acordar com rabo e chifre no dia seguinte ao da folia só era aliviada depois de fazer um sinal da cruz. Mas quando a história caiu no gosto popular, os moradores e a Prefeitura resolveram se unir para trazer o carnaval de volta à cidade, mantendo as tradições dos antigos foliões. Músicos locais tomaram a iniciativa de organizar o “Festival de Marchinhas†e o convite foi feito à população para que criasse suas próprias composições.
Foi então que as marchinhas começaram a se impor como a marca da cidade. Virou decreto municipal: durante o carnaval é proibida a execução de qualquer ritmo que não seja a marchinha carnavalesca.
A terra das lendas
São Luis do Paraitinga reúne o maior número de contadores de “causo†por metro quadrado do paÃs. As histórias passadas de boca em boca fazem com que tradições folclóricas e religiosas percorram os séculos. O personagem do Saci é herói local: uma lei municipal instituiu o “Dia do Saciâ€, comemorado todo 31 de outubro. Enquanto o resto do mundo celebra o Halloween, São Luis defende o folclore nacional contra a invasão cultural das bruxas importadas do primeiro mundo. É a explicação que está no decreto.
E dá-lhe festa. A do Divino, que acontece sempre 50 dias depois da Páscoa, tem duração de 10 dias e reúne os católicos mais fervorosos da região. Novenas, bandeiras coloridas e procissões celebram o EspÃrito Santo. Mas os turistas querem saber mesmo é do “Afogadoâ€, comida tÃpica feita de carne de vaca de segunda, refogada e servida de graça a todos os que acompanham a festa.
E tem mais: Congada, Dança de Fitas, Folia de Reis, Pastorinhas, Catira e Serestas, celebrações folclóricas que fazem de São Luis do Paraitinga o último reduto caipira do Estado de São Paulo.
Fuja da Festa
Depois da época dos tropeiros, pouca coisa mudou. Paraitinga não conheceu o desenvolvimento industrial, não viveu o progresso - mas preservou as suas exuberantes qualidades naturais. A topografia montanhosa e os rios que cercam o municÃpio favorecem o turismo ecológico. A beleza natural faz parte do Parque Estadual da Serra do Mar, um paredão de montanhas com vegetação de Mata Atlântica que percorre o litoral paulista. A área tem 310 mil hectares e foi declarada como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. Dentro dessa imensidão verde está o Núcleo Santa VirgÃnia e o municÃpio de São Luis do Paraitinga ocupa 70% desse espaço. Os turistas podem conferir a exuberância das 17 cachoeiras espalhadas pelos rios Ipiranga, Ribeirão Grande e Paraibuna. Se a opção é escapar da folia, a paz pode ser encontrada nas trilhas à s margens dos rios, com direito a mergulho nas águas cristalinas.
Pinga e canoa
Há 35 Km do centro da cidade, a cachaça é produzida da forma mais antiga, conservando os sabores do manuseio artesanal. É possÃvel conhecer o processo de fabricação e, claro, degustar a preciosidade local, que é exportada para Estados Unidos e Europa. Para os esportistas que não tiram folga nem em feriado, tem atividade de sobra. Fortes emoções são garantidas na descida das corredeiras com botes infláveis. São dois roteiros: no mais curto, com 2 horas de duração, as curvas do rio são para os iniciantes no remo. O segundo roteiro dura 6 horas, com corredeiras consideradas de alto nÃvel. Uma novidade na cidade é a pista de arborismo. O percurso tem mais de um quilômetro, com direito a duas tirolesas, a maior com 700 metros de extensão e paredão para escaladas. A recompensa para quem alcançar o fim do passeio é a vista da Praça Central e dos casarões preservados do Centro Histórico.
Por Nádia Pontes
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