
São Luis do Paraitinga: No ritmo da marchinha
Paraitinga oferece um carnaval tão tradicional quanto alternativo
Texto: Nádia Pontes
publicada na JungleDrums n.41 Janeiro 2007
É em uma cidadezinha a caminho do litoral, cravada na cadeia de montanhas da Serra do Mar, que acontece uma das festas mais surpreendentes e divertidas do estado de São Paulo. Todo ano a bucólica e pacata São Luis do Paraitinga recebe uma multidão de foliões que ferve nos quatro dias de carnaval.
O ritmo que atrai os cerca de 100 mil turistas é muito peculiar. Esqueça os batuques do axé ou a cadência do samba: o embalo que faz o povo emendar o dia na noite, mesmo debaixo da chuva que todo o ano cai durante a festança é o das marchinhas.
A praça mais conhecida da cidade é tomada por um turbilhão de gente vinda de todo canto do Brasil. O destino ainda é desconhecido pelos estrangeiros, mas quem foi convidado a curtir o carnaval de São Luis não esquece: “Muito vibrante e original. Como o povo brasileiroâ€, decreta a holandesa Suzanne Reuling.
O cenário da cidadezinha de pouco mais de 10 mil habitantes data da época colonial, quando os tropeiros carregados de ouro que vinham do norte de Minas Gerais. Essa história é ainda visÃvel nos 90 casarões tombados pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, em toda a cidade - que viram camarotes lotados nos dias de carnaval.
Há muito o que ver e fazer em São Luis do Paraitinga. Acompanhar os blocos formados por moradores exige fôlego e é sempre engraçado. O compasso apressado das marchinhas é contagiante e as letras são inusitadas. O desfile não pára, é bloco atrás de bloco: Orêia Seca, Merendão, Pai do Troço e outros tantos vão puxando a massa. O mais famoso deles é o Juca Teles, fundado pelo artesão e compositor Benito Campos em 1984.
Pular carnaval é hoje quase obrigatório entre os habitantes de São Luis, mas nem sempre foi assim. Nos anos de 1910, logo que o carnaval começava a ganhar as ruas da cidade, o padre italiano Monsenhor Ignácio Gióia ameaçou os fiéis usando uma estrategia dos infernos. Literalmente. Aproveitando a forte vocação católica de toda a região, o padre declarou que quem pulasse carnaval teria que conviver com o rabo e chifre que brotariam como punição. A ameaça colou, e a festa foi suspensa na cidade por muitos anos. E, apesar de ter banido a farra por um bom tempo, o personagem do passado é hoje nome de rua, por onde desfilam alegremente os carnavalescos.
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