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Lula, o PAC e a favela do Alemão

Por Damian Platt *

Numa sexta-feira de Março Lula subiu num palanque de rua perto do Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio e declarou para milhares de pessoas que a segurança dos homens, mulheres e crianças tem de ser respeitada pela polí­cia, mesmo que "como sabemos, criminosos não possam ser tratados com flores". A visita do presidente ao Alemão, seguida depois por uma ida à Rocinha e Manguinhos, inaugurou um programa de desenvolvimento avaliado em 1,14 bilhão de reais que irá beneficiar as três comunidades. O programa, parte do chamado de PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), tem como objetivo melhorar a infra-estrutura dessas favelas.

No caso do Alemão, a histórica presença de Lula foi recebida com otimismo cauteloso. O Complexo do Alemão é uma enorme área que abriga 11 favelas e mais ou menos 150 mil pessoas. Nordestinos e descendentes são a maioria da população. Ao longo dos anos, o Alemão ganhou a reputação de lugar violento, primeiro devido ao assassinato do jornalista da Globo Tim Lopes e depois a batalha entre a policia e os traficantes no ano passado que durou 2 meses. Mais de 70 pessoas foram mortas e muitas mais ficaram feridas por balas perdidas (dentre as ví­timas havia muitos inocentes).

Qualquer um que vive no Complexo do Alemão sabe que esse tipo de operação e o confronto entre polí­cia e tráfico não é simplesmente um briga entre mocinho e bandido. Os traficantes só mantém o controle da comunidade porque lidam com policiais corruptos, e há uma enorme quantidade de dinheiro que rola através de propina e outros esquemas semi-ilegais que existem no Complexo. Na ausência do Estado, é essa economia informal que sustenta o status quo, para o benefí­cio de uma minoria criminal, sejam eles policiais corruptos ou traficantes de droga.

Apesar da violência e da exclusão social que vem junto – há apenas uma escola, um par de creches e um punhado de postos de saúde mal equipados – o Alemão é um lugar vibrante e amigável. Tem um dos mais famosos bailes funk do Rio, nas noites de sexta-feira o Furacão 2000 toca as últimas batidas para milhares de pessoas. Tem ruas comerciais bem coloridas e mercados bem abastecidos e cheios de gente que vendem de tudo: de peixe-dourado a lingerie e matérias para construção. Sem contar que tem um monte de padaria, sorveteria, pizzaria e bares onde dá para se parar e comer algo. A população é impressionantemente jovem (uma pesquisa recente etima que 60% tenha menos de 32 anos) e as ruas estão sempre cheias de criança. Lá em cima da Pedra do Sapo, uma parte da favela que tem uma atmosfera mais rural, os visitantes podem apreciar uma vista da cidade inteira de tirar o fôlego (vê-se desde a Igreja da Penha, passando pela Baia de Guanabara, Ilha do Governador, até a Zona Sul e o Pão-de-Açúcar).

Como a maioria das favelas do Rio, o Complexo do Alemão tem muito a oferecer. O povo que vive lá o mais trabalhador da cidade. Mas embora eles normalmente tenham de ir todo dia até a Zona Sul pra trabalhar, raramente (se nunca) a Zona Sul vem até eles. O que a Zona Sul viu do Alemão nos anos recentes estão limitado às imagens de tiroteio que aparecem na tevê. Mas em março, pela primeira vez, um presidente da república fez uma visita ao Complexo e isso já representa um grande passo. Agora é uma questão de tempo para ver se as promessas do PAC serão implementadas. As pessoas já expressaram algumas preocupações: para alguns, o desenvolvimento do Alemão tem de passar pela construção de um sistema de bondinho. Mas o transporte na comunidade não é um problema sério, dá pra ir pra qualquer lugar em minutos com um moto-táxi por R$ 1.

A idéia do bondinho teoricamente foi inspirada por uma visita que o Governador do Rio Sérgio Cabral fez para a Medelin, Colômbia, em 2007. Mas quem inventou a idéia esqueceu de um detalhe importante: Medelin é rodeada por montanhas. O Complexo do Alemão não é.

* Damian Platt é inglês e vive no Rio onde trabalha com o Grupo Cultural Afroreggae. Para saber mais sobre o projeto, visite o site www.www.afroreggae.org.br

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