Uma viagem diferente

Experiência de vida ou roubada? DJ Cliffy conta as histórias e dá dicas de como fazer turismo voluntário no Brasil sem cair em nenhuma cilada

São seis da manhã e me encontro sentado tomando um cafezinho no aeroporto dos Guararapes em Recife. Passei a noite inteira em branco e pela lógica deveria me sentir exausto, no entanto, nunca me senti tão bem. Acabo de discotecar em uma festa que celebrou o encerramento de uma série de workshops para crianças de rua. Ao longo de quatro dias, 50 crianças tiveram contato e aprenderam percussão, danças afro-brasileiras e até técnicas de discotecagem. Ao término elas ganharam um certificado, uma camiseta descolada e vários sorrisos estampados.

Os workshops marcaram o fim de minhas duas semanas de voluntariado na pequena mas empenhada ONG Ruas & Praças. Durante esse período visitei uma fazenda orgânica, participei de uma reunião de mães e acompanhei o serviço social em uma favela. Foi uma das experiências mais recompensadoras que tive em muitos anos.

Minha história não é muito diferente da de milhares de pessoas que se apaixonaram pelo Brasil. Durante a última década, o país se tornou um dos principais destinos de programas de voluntariado para estrangeiros. Procure no Google, por exemplo, â€volunteer Brazil†e você vai se deparar com uma avalanche de sites, muitos oferecendo programas a preços extorsivos. Esses sites lucram com seu dinheiro usando uma marmelada com o nome de ‘programme fee’ (taxa do programa). Entrei em contato com uma dessas companhias para pedir explicações sobre a distribuição do dinheiro e nunca obtive resposta.

Conheci outra voluntária, Angie M., que pagou £750 por duas semanas de voluntariado em um projeto de ensino musical em Olinda e acabou por descobrir que nem uma gota desse dinheiro chegou às mãos da escola. E as famílias que hospedavam os voluntários também não recebiam pagamento há meses. Para ela, antes de tudo, é importante se informar muito bem sobre o destino de todas as taxas. “Seja bem específico ao questionar qualquer agência ou companhia. Pergunte a eles exatamente como seu dinheiro será distribuído. Faça com que expliquem por e-mail, não que isso tenha validade legal, mas pelo menos demonstra que você não é otário. Se eles não têm nada a esconder, você terá todas as repostas que precisaâ€.

Sua revolta foi ainda maior ao notar que o programa de ensino de música sempre se transformava em aulas de inglês. E nenhum voluntário jamais havia dado aulas de música na escola. Por ter pago todas as despesas em adiantado, ela não teve como recorrer e acabou até contribuindo com uma doação à escola.

Talvez o melhor meio de evitar atravessadores inescrupulosos seja contatar diretamente as ONGs ou pesquisar alguma parceria local, como a Iko Poran, uma ONG com sede no Rio de Janeiro reconhecida por fazer a ponte entre voluntários e programas.

A Iko Poran apóia uma série de projetos culturais, como o Ballet de Santa Teresa (que promove integração sócio-cultural por meio da dança) e o Jongo de Serrinha (cujo objetivo é preservar tradições culturais trazidas pelos escravos africanos e capacitar jovens carentes). Suas taxas são razoáveis (menos de £100 por semana) e 50% do valor cobrado beneficia diretamente o projeto final. O website da instituição (com uma versão completa em inglês) respalda sua credibilidade e transparência financeira.

Você pode ir ainda mais além para evitar a cobrança de qualquer taxa. O site Volunteer South America lista diversos programas de voluntariado de baixo custo ou até gratuitos, enquanto o World Service Enquiry (WSE) coloca à disposição o download gratuito de um guia com mais 350 organizações.

Outra opção é tentar a sorte assim que pisar no Brasil. Há uma infinita variedade de projetos interessantes espalhados pelo país. Você pode, assim como eu, achar que Recife é o lugar ideal para você. A cidade é conhecida como a capital das ONGs e sua rica vida cultural, aliada ao baixo custo de vida, faz com que seja um destino atraente a qualquer voluntário.


5 DICAS QUENTES
Pronto para embarcar? Confira aqui os conselhos do DJ Cliffy

Pesquise – Faça a lição de casa e não aposte no Google simplesmente! Confira sites de informações turísticas e fóruns de voluntariado. Dê uma olhada em sites como o Latin America Bureau ou o Voluntary Overseas Service (VSO). Ambos possuem uma boa lista de links.

Idioma – Pode parecer óbvio, mas um pouco de conhecimento em português abre muitas portas, além de enriquecer a interação social e profissional.

Seja objetivo – Decida o que você quer ganhar de sua experiência: viajar; aperfeiçoar o idioma ou conviver com comunidades indígenas. Algo mais específico como trabalhar com agricultura, pacientes com Aids ou grupos vulneráveis ajuda a refinar sua pesquisa.

Habilidades – Pergunte a si mesmo o que você tem a oferecer. Algumas organizações podem precisar apenas de uma mão extra, mas você pode oferecer muito mais. Muitas vezes elas não estão atrás apenas de conhecimentos técnicos, mas serviços de tradução, digitação, pintura, ensino de idiomas, aulas de dança, etc.

Dinheiro – Talvez seja possível negociar a alimentação e a hospedagem incluídas no pacote. Tente não pagar tudo adiantado, assim você conserva um pouco de poder de barganha. Faça com que descrevam tudo o que está incluído no valor. Se preferir armar a viagem inteira independentemente, leve em conta saúde, seguro e transporte local. E boa sorte.

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Por DJ Cliffy

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Brazil, cliffy, dj, Tourism, trip

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