Shooting Jean Charles
Paranóia e medo em Londres. Um ataque terrorista mata 52 pessoas e faz a capital britânica mergulhar numa atmosfera de intensa desconfiança. Imediatamente, a eficiente Scotland Yard inicia uma enorme operação em busca dos culpados. No meio das investigações, a polícia mata um inocente: um jovem imigrante de uma pacata cidade do interior do Brasil. A caminho do trabalho, pouco após entrar no vagão do metrô, a vítima é confundida com um terrorista e acaba executada pela polícia inglesa com sete tiros na cabeça.
Infelizmente, apesar de parecer sinopse de um filme, a narrativa acima aconteceu de verdade. E agora, quase dois anos após o chocante crime, Henrique Goldman, cineasta brasileiro radicado em Londres, decidiu tocar no delicado assunto e transportá-lo para as telas de cinema. A primeira proposta veio de um convite da BBC. No entanto, a TV estatal exigia um grande enfoque nos conflitos políticos e na fracassada ação policial do caso. Preferindo “tocar um sambinha”, Goldman encerrou a parceria e carregou sua câmera para onde pudesse apontá-la para a vida de Jean e o dilema de imigrar. A mudança atraiu o renomado diretor Stephen Frears (The Queen), que será o produtor executivo do empreendimento. De seu escritório no Westbourne Studios, o diretor conversou com a JungleDrums sobre os detalhes do ambicioso projeto.
Como surgiu a idéia de fazer um filme sobre Jean Charles?
Quando ocorreu o episódio da morte do Jean fiquei fascinado pela história e curioso pra saber quem era o cara. “Puxa, que loucura isso! Um brasileiro que morre no meio de tudo aquilo”, pensei. Comecei a cogitar um documentário a respeito, mas a coisa era muito recente e não houve interesse imediato para um olhar analítico. Passados alguns meses, recebi um email do Fernando Meirelles (diretor do celebrado Cidade de Deus), que me indicou para uma produtora inglesa.
Eles então me chamaram, queriam um brasileiro para dar certa credibilidade, mas o filme foi ficando cada vez mais visto pelo lado inglês. Em toda essa história o que há de mais interessante? A vida do Jean Charles ou a política inglesa? Para mim é a vida de Jean, mas para eles, compreensivelmente, as questões políticas. É como se eles dissessem: “Vem cá, toca um sambinha aqui pra gente!”. Mas quando eu chego lá, eles pedem que eu toque Britain Quartet.
Mas eu não sei tocar isso, eu não quero tocar isso. Só toco samba de morro. Por melhor que fossem as intenções dos produtores, a situação estava ficando muito constrangedora. Eu estava numa posição em que me sentia obrigado a fazer o que eu não queria. Minha esperança é de que na hora do ‘vamos ver’ eu pudesse virar a câmera para o outro lado. Mas a BBC tirou o fio da tomada. Eles queria fazer um filme investigativo, que apontasse os culpados.
Então eles queriam apontar o dedo para a Scotland Yard?
Isso entra num âmbito para o qual eu talvez seja meio ingênuo ainda. Eu acredito na democracia britânica. Eu acho que a BBC teria independência para fazer um filme que fosse contra o interesse da polícia inglesa. Acho que eles queriam peitar. Mas não quero me aprofundar em assuntos sobre os quais não tenho certeza, não tenho provas.
Você acha que iria ser uma espécie de “bucha de canhão” dessa história se tivesse permanecido no projeto da BBC?
Não posso falar sobre isso, não tenho provas. Acho que seria útil pra eles terem esse álibi. Mas eu não posso medir a motivação política.
Quando ocorreu a desistência da BBC?
Em abril do ano passado. Desde então ficamos pensando em como poderíamos continuar a fazer o filme, porém numa perspectiva brasileira. Mas eles já tinham comprado os direitos dos primos do Jean. Por coincidência, era exatamente sobre o que queríamos fazer. Finalmente, numa discussão judicial, conseguimos, eu e a produtora Mango Filmes, comprar os direitos da obra.
Eu tenho uma relação de trabalho paralela com o Stephen Frears, diretor do The
Queen, e por isso ele acabou também se envolvendo no projeto como produtor executivo. Ele já estava no projeto quando a idéia estava articulada pela BBC?
Não. Uma das coisas que tornou o projeto atraente para o Stephen foi essa postura sem compromisso, de fazer um filme falado em português sobre a comunidade brasileira em Londres. Não é um filme inglês. É a historia contada do ponto de vista do Jean e dos primos dele. Não é um filme do ponto de vista da política inglesa.
Ele já estava no projeto quando a idéia estava articulada pela BBC?
Não. Uma das coisas que tornou o projeto atraente para o Stephen foi essa postura sem compromisso, de fazer um filme falado em português sobre a comunidade brasileira em Londres. Não é um filme inglês. É a historia contada do ponto de vista do Jean e dos primos dele. Não é um filme do ponto de vista da política inglesa.
O filme vai mostrar uma Londres receptiva a estrangeiros?
O filme quer explorar também essa questão de o imigrante se adaptar ou se fechar. A personagem principal é uma menina, a priminha do Jean. Uma gatinha, linda, maravilhosa, sorridente, tímida. E essa menina vira uma mulher que acaba encontrando em Londres a sua ‘home’, ou seja, um sentimento de pertença ao local. Isso é uma coisa linda de Londres. Se você quiser, vira um londrino também. É uma cidade muito aberta e tolerante.
E como vai ser explorado isso?
O filme começa com o Jean Charles chegando com a priminha. Ele é um cara muito esperto e ambicioso que chegou aqui e seu deu muito bem. Ele ganhava bem, quase £30.000 por ano, o que é uma puta grana em qualquer lugar do mundo. Jean era uma espécie de pop star dentro do pequeno mundo de brasileiros na Inglaterra.
Mas mesmo estando na ilegalidade?
A questão do status do Jean aqui é uma das surpresas que o filme vai trazer. Acho que as pessoas vão ficar surpreendidas em descobrir quem era ele. Era um cara engraçado e ambicioso. Eu também passei por muita coisa quando fui morar em Nova York e me identifico com isso.
Isso tudo é o perfil do que era realmente o Jean ou há elementos fictícios?
Durante as pesquisas nós fomos descobrindo muito sobre ele. Entrevistamos várias pessoas, família, amigos, local de trabalho, a turma de Gonzaga. Ele era um cara de carne osso. Ele não era um santo. Por que ele seria um santo? Só porque ele foi vítima? Isso seria desumanizá-lo. Jean era um brazuca esperto que, com altos e baixos, se deu bem em Londres.
Há nomes confirmados para o elenco?
Temos um contato para o Wagner Moura fazer o papel do Jean. A oferta ainda está de pé para ele, mas parece que ele já estava comprometido com um outro filme no Brasil na mesma época em que estaremos filmando. Logo, procuraremos outras alternativas. A não ser que nosso filme atrase e as datas dele se acertem com as nossas.
Ele será todo filmado aqui?
Tem uma seqüência no Brasil.Aproximadamente 80% serão filmados aqui, 20% em Gonzaga. Outra coisa legal é que a trilha sonora terá muita música sertaneja. Jean era radical sobre isso. Ele gostava de Chitãozinho e Xororó, Tonico e Tinoco. Ele gostava de música ‘das antigas’. Vai ter também Caetano Veloso, que já topou fazer uma versão caipira para London, London. Essa é uma música que se tornou o hino dos brasileiros em Londres.
Além desse projeto em andamento, você possui outros trabalhos sobre o tema imigração, como o longa-metragem Princesa. Por que o interesse no tema?
O Brasil é um país que historicamente deixou de receber e passou a gerar imigrantes. E isso em apenas uma geração. E isso me fascina. Num conhecido restaurante brasileiro no centro de Londres, por exemplo, vende-se quibe como comida brasileira. O Brasil possui essa peculiaridade de “abrasileirar” aquilo que bem se relaciona com o país.
Acredito que meu tema geral, na verdade, seja o olhar e a condição do outsider. Eu também sou imigrante. Mesmo no Brasil, como brasileiro vindo de uma família judia, acabo me sentindo um tanto outsider. Acho que é uma condição humana, todo mundo se sente do lado de fora ao questionar sua relação com o mundo.
Por Aleksander Aguilar
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