
Belo Horizonte: De Bar em Bar
Petiscos criativos e competições folclóricas: O mundo à parte dos bares de Belo Horizonte
Texto: Gabriel Silvestre
publicada na JungleDrums n.55 Março 2008
Se você alguma vez já teve a oportunidade de tomar uma cerveja com um mineiro, é muito provável que ele tenha te revelado duas estatísticas extra-oficiais: 1. Belo Horizonte é a cidade do Brasil com o maior número de bares per capita. 2. Minas Gerais é o estado que mais consome litros de cerveja anualmente – em volume mesmo, não por pessoa!
Se depender de meu amigo Vinícius, pode até ser verdade. Boêmio e bom de copo, ele me contou orgulhoso estes e outros fatos em meio a diversas rodadas de pint. Isso, aliás, revela bem outro traço característico de quem vem de sua terra natal: o dom de contar histórias. Mineiros adoram contar causos, e se forem sobre bebida então, a conversa vai longe. Impaciente com a minha relutância em aceitar suas histórias, ele me lançou o convite: “Rapaz, se você me visitar em BH vou mostrar o que é uma cidade onde ir ao bar é um estilo de vida!”. Então tá, coloquei uns Engov na mala e paguei pra ver.
Mercadorama
Quem estica as pernas por Belo Horizonte logo percebe que é uma grande metrópole, a terceira maior do país por sinal com cinco milhões de habitantes. Como todo grande centro urbano, o panorama da cidade é permeado por grandes edifícios e um mundaréu de carros e gente, uma transformação e tanto da antiga fazenda de café que ficava no local há meros 110 anos atrás. Mas isso significa também diversas opções de lazer, a começar pelo centro, com elegantes praças como a Liberdade, onde funciona o centro cultural Palácio das Artes, ou o respiro verde das palmeiras do Parque Municipal. No entanto, nada se compara a uma visita ao Mercado Central. O lugar é um verdadeiro supermercado das excentricidades mineiras.
Na melhor tradição dos grande mercados cobertos europeus, o local abriga centenas de estabelecimentos que vendem de tudo, literalmente. São toneladas de produtos típicos pelos quais Minas é famosa como queijos, doces, café e cachaça; assim como acessórios, roupas, artigos de candomblé, animais de estimação, animais vivos para refeição, enfim vale tudo, até uma emissora de rádio que opera de dentro do mercado. Tinha marcado de encontrar meu anfitrião em um dos bares locais, mas tinha de ter cuidado e seguir seu conselho: ‘evite olhar nos olhos dos garçons’. Quem passa desavisado é alvo fácil, e só cruzar olhares com eles que logo vem um em sua direção com uma garrafa de cerveja em punho, ‘Essa é pra você!’. Daí fica impossível resistir. Nunca fui tão cauteloso com o contato olho a olho desde minhas aventuras por Amsterdã.
Encontrei Vinícius no balcão de um boteco já me esperando com uma gelada e um petisco de aspecto duvidoso. “Você tem de provar isso, é Figado com Jiló”, tentava me encorajar o dito amigo. “Eu sei, pode não soar exatamente apetitoso, mas não se pode vir aqui sem comer um. É uma verdadeira instituição local!”. Ok, então melhor trazer outra gelada.