Ilha Grande: O Paraíso do Diabo

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Um dos destinos mais belos da costa brasileira, a ex-ilha penal de Ilha Grande é um perfeito refúgio, no meio do caminho entre Rio and São Paulo.

Texto: Gabriel Silvestre
publicada na JungleDrums n.45 Maio 2007


“Dois rios deságuam no mar, um em cada extremo da praia, como se abraçassem a pequena baía. O lugar é perfeito, areia branca e mar azul límpido rodeado por uma bem preservada área de mata atlântica”. Foi assim que um amigo descreveu a praia de Dois Rios. Um cenário tão paradisíaco que era difícil acreditar que um lugar assim existisse. Mas ele merecia crédito. Calejado conhecedor do litoral carioca, suas dicas já me levaram a lugares fantásticos no estado, só que este prometia algo diferente. “Além disso tudo, anos atrás, uma galera braba que morava lá deu o apelido de ‘Caldeirão do Diabo‘ ao lugar”, ele completou. Algo não parecia fazer sentido.

Descobri que a “galera” a que Gustavo se referia eram, na verdade, presidiários que habitaram Dois Rios por quase cem anos. O tal “Caldeirão do Diabo” era o destino deles, o Instituto Penal Cândido Mendes. Construído em 1903 para abrigar detentos comuns, o presídio passou por diversas reformas e funções até ser finalmente desativado e implodido em 1994.

Por trás de suas grades já estiveram conhecidos nomes da história brasileira, como Madame Satã, folclórico travesti das noites cariocas dos anos 30 (cuja vida virou filme em 2002), e o escritor Graciliano Ramos, preso por sua suposta associação com o comunismo. O horror vivido por Ramos foi tão marcante que virou livro, o clássico “Memórias do Cárcere”. Durante a ditadura militar dos anos 70, presos comuns passaram a dividir os muros do presídio com revolucionários de esquerda. Nesse convívio, aprenderam táticas de guerrilha, planejamento e organização, ingredientes que formaram o Comando Vermelho, um dos primeiros e maiores grupos de crime organizado do país. Nesse passado bastante recente, não era comum associar a Ilha Grande a cenários paradisíacos. Ela era conhecida como a “Ilha Presídio”.

Voltando ainda mais no tempo, no século XVII, a Ilha Grande recebeu seus primeiros personagens marginais. Eram piratas ingleses, franceses e holandeses que se escondiam para então atacar os abarrotados galeões que deixavam o Brasil levando ouro e outras preciosidades a Portugal. Hoje, livre desse passado maldito, a ilha vive seus dias de redenção e abraça uma nova onda de “forasteiros”, também ingleses, franceses e holandeses, entre outros, só que agora atrás de novos tesouros. Dessa vez eles são naturais: as deslumbrantes praias e trilhas da ilha.

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