Ilha Grande - O paraíso do diabo
“Dois rios deságuam no mar, um em cada extremo da praia, como se abraçassem a pequena baía. O lugar é perfeito, areia branca e mar azul límpido rodeado por uma bem preservada área de mata atlântica”. Foi assim que um amigo descreveu a praia de Dois Rios. Um cenário tão paradisíaco que era difícil acreditar que um lugar assim existisse. Mas ele merecia crédito. Calejado conhecedor do litoral carioca, suas dicas já me levaram a lugares fantásticos no estado, só que este prometia algo diferente. “Além disso tudo, anos atrás, uma galera braba que morava lá deu o apelido de ‘Caldeirão do Diabo‘ ao lugar”, ele completou. Algo não parecia fazer sentido.
Descobri que a “galera” a que Gustavo se referia eram, na verdade, presidiários que habitaram Dois Rios por quase cem anos. O tal “Caldeirão do Diabo” era o destino deles, o Instituto Penal Cândido Mendes. Construído em 1903 para abrigar detentos comuns, o presídio passou por diversas reformas e funções até ser finalmente desativado e implodido em 1994.
Por trás de suas grades já estiveram conhecidos nomes da história brasileira, como Madame Satã, folclórico travesti das noites cariocas dos anos 30 (cuja vida virou filme em 2002), e o escritor Graciliano Ramos, preso por sua suposta associação com o comunismo. O horror vivido por Ramos foi tão marcante que virou livro, o clássico “Memórias do Cárcere”. Durante a ditadura militar dos anos 70, presos comuns passaram a dividir os muros do presídio com revolucionários de esquerda. Nesse convívio, aprenderam táticas de guerrilha, planejamento e organização, ingredientes que formaram o Comando Vermelho, um dos primeiros e maiores grupos de crime organizado do país. Nesse passado bastante recente, não era comum associar a Ilha Grande a cenários paradisíacos. Ela era conhecida como a “Ilha Presídio”.
Voltando ainda mais no tempo, no século XVII, a Ilha Grande recebeu seus primeiros personagens marginais. Eram piratas ingleses, franceses e holandeses que se escondiam para então atacar os abarrotados galeões que deixavam o Brasil levando ouro e outras preciosidades a Portugal. Hoje, livre desse passado maldito, a ilha vive seus dias de redenção e abraça uma nova onda de “forasteiros”, também ingleses, franceses e holandeses, entre outros, só que agora atrás de novos tesouros. Dessa vez eles são naturais: as deslumbrantes praias e trilhas da ilha.
Na trilha do ecoturismo
Com suas 106 praias e 193 km² de extensão, a Ilha Grande faz jus ao seu nome. Chegar até ela não é complicado, mas pede apenas um pouquinho de planejamento. O único acesso possível é pelo mar, através das barcas que saem diariamente de Angra dos Reis e Mangaratiba. Qualquer veículo deve ser deixado para trás, já que carros e motos não podem circular por ali.
Quem parte do Rio, como fiz, deve madrugar para percorrer os 105 quilômetros até Mangaratiba, já que a barca sai às oito da manhã. O esforço logo é recompensado ao chegar a Vila do Abraão, capital informal da ilha. Palmeiras, mangueiras e amendoeiras povoam sua orla servindo sua sombra a preguiçosos cães pulguentos. Aqui se concentram a maioria das pousadas e a estrutura da ilha, como restaurantes, bares e internet cafés. Operadoras oferecem passeios de escuna, com a promessa de levar a praias desertas. Quem tem fôlego e resolve encarar as diversas trilhas, no entanto, tem como bônus cachoeiras, lagoas e vistas privilegiadas.
As trilhas da ilha oferecem a oportunidade de vislumbrar a riqueza da fauna e da flora da mata atlântica. Esse tipo de vegetação já chegou a cobrir 15% do território brasileiro e possui uma das maiores biodiversidades de ecossistema no planeta, lar de mais de 500 espécies endêmicas. É bem grande a chance de topar com papagaios, pica-paus, macacos e pacas por aqui.
Depois de uma hora e meia percorrendo uma trilha leve, chega-se à praia de Lopes Mendes. Sempre presente no ranking das mais belas praias do país, ela tem quase três quilômetros de areias finas e brancas e águas ideais para o surfe. Foi nela que escolhi passar boa parte de minha estadia, com direito a cerveja sempre gelada e uma pelada de fim de tarde.
Vista para o Rio
Se essa trilha é moleza, o destino seguinte é o outro lado da moeda. Empolgado com as descobertas do dia anterior, aceitei o convite de um grupo de trilheiros ao topo do Pico do Papagaio. Foi bom não ter feito muita pergunta. Se soubesse de antemão que o pico tinha 980 metros de altitude, não teria deixado minha rede. A subida é puxada. Quem tem bom preparo físico consegue completar o trajeto em três horas. Mesmo se você demorar mais, vale a pena: a vista de lá de cima é simplesmente espetacular. Além de conferir de cima a grandeza da ilha, em dias claros é possível até avistar a Pedra da Gávea, no Rio.
Tantas aventuras, muitas emoções, mas ainda faltava visitar Dois Rios. A caminhada que começa na Vila do Abraão é moderada, são sete quilômetros por uma estrada de terra acidentada que os mais corajosos percorrem de mountain bike. Tudo muito diferente do trajeto realizado por Graciliano Ramos. Até 1940, os condenados a passar seus dias em Cândido Mendes tinham de seguir uma trilha com subidas íngremes, e os guardas atrás só cobrindo de cascudo.... A existência do presídio acabou por preservar o local, já que o vilarejo e a praia de Dois Rios só vieram a ser abertas ao público depois de implodida a prisão.
Nas poucas casas do vilarejo ainda hoje vivem alguns ex-funcionários do presídio, menos expansivos que os habitantes de outras partes da ilha. As ruínas do “Caldeirão do Diabo” ainda estão lá, abertas à visitação, criando uma bizarra atração em meio a tanta beleza natural. Foi ali, naquela representação tão próxima de inferno e paraíso lado a lado que terminei minhas aventuras na Ilha Grande. Não por falta de opções, pois ainda restaram 104 praias por conhecer…
Por Gabriel Silvestre
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