Moda cheia de lama - São Paulo Fashion Week: a moda desfilou pelo submundo do Rio Tietê

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Words by Nathalia Pires / pictures by Marcio Madeira

Não havia trilha sonora nem DJ para “dar o tom do desfi le”. Apenas uma sirene (que mais lembrava um alarme de aviso de bombardeio) para marcar o início e o fi m do evento. O cenário tinha, de fundo, os carros e caminhões cruzando a Marginal Tietê na cidade que não pára; e no primeiro plano, no lugar de uma das passarelas do São Paulo Fashion Week, a margem de um dos rios mais poluídos do mundo. Lá estava, inclusive – além dos modelos com visual sombrio – todo o lixo escoado pela chuva dos últimos dias e o mau cheiro de sempre. Foi por tudo isso e mais um pouco
que a Cavalera decidiu levar o mundinho fashion para o rio Tietê.

A São Paulo Fashion Week é a maior semana de moda da América Latina. A cada seis meses, o prédio da Bienal – edifício localizado no Parque Ibirapuera, em São Paulo – é invadido por estilistas, modelos, penetras e jornalistas do mundo todo. Mas no domingo 20 de janeiro a grife Cavalera levou cerca de 200 convidados – devidamente munidos de capa de chuva e máscara cirúrgica
contra o fedor – para acompanhar o desfi le na margem do rio. A intenção era, além de apresentar a coleção outono/inverno da marca, levantar um debate sobre a situação do Tietê.

O estilista Marcelo Sommer resolveu ir a fundo na preocupação ambiental também em relação às roupas: muitas delas eram de coleções passadas e permitiam diversos modos de usar. Com isso, ele também pretendia fazer um protesto contra a moda descartável e alertar para a
reciclagem de materiais como uma maneira viável de contribuirmos com o meio-ambiente. Ao fi nal do desfi le, o saldo foi de satisfação dos convidados com a iniciativa, sensação de missão cumprida dos organizadores e muitas roupas sujas de lama.

O rio, que percorre quase 1.100 km dentro do Estado de São Paulo, até 1930 era utilizado como local de lazer para os paulistas. A partir da década de 30, entretanto, o rio passou a servir de esgoto industrial e urbano. Mesmo com alguns afl uentes poluídos, os outros trechos (fora da cidade de São Paulo) têm suas águas bastante cristalinas, mostrando que, apesar de seu trajeto na região metropolitana encontrar-se severamente comprometido pela degradação, ainda há esperanças para a recuperação e uma perspectiva promissora para sua reutilização.

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