
O inglês que se apaixonou por uma favela e a transformou no lugar mais seguro da cidade
encontro com o BOPE | A imagem do BOPE na cidade do Rio é quase mítica. As fardas e os veículos pretos, o semblante sempre fechado, o armamento pesado que portam e o escudo onde se vê uma faca enfiada numa caveira impõem medo e respeito por onde passam. O estrondoso sucesso do filme Tropa de Elite, do diretor José Padilha, que mostra a realidade de um policial do BOPE na cidade (vivido pelo ator Wagner Moura) reforçou ainda mais essa imagem.
A relação do Bob com o BOPE é antiga. Na verdade, foi o inglês o maior responsável pela instalação do QG da tropa de elite no local, ao apresentar ao então governador Anthony Garotinho a viabilidade
do projeto. Na época, Bob trabalhava como correspondente da BBC, no Brasil. Como político adora agradar jornalista, principalmente internacional, Garotinho topou. A sede do batalhão foi inaugurada
em 2000 e, a partir daí, mudou a história da favela.
A primeira conseqüência foi o desaparecimento do tráfico na região. É claro, nenhum traficante seria louco o suficiente para colocar uma boca de fumo ao lado de umas das polícias mais bem preparadas do mundo. A especialidade do BOPE é justamente invadir favelas e, para se manter em
forma, os soldados utilizam a Tavares Bastos como campo de treinamento. A reportagem do The Guardian realmente acertou ao classificá-la como um dos lugares mais seguros do Rio. E eu diria até do Brasil.
Estávamos conversando na sala, quando o major Vargas chegou. Bob nos apresentou e explicou que estava sendo entrevistado. Ao retornarmos à varanda, discretamente o major se virou para mim e soltou baixinho: - Se estiver gravando vai levar uma dura, entendeu?– e foi alcançar o Bob, que estava mais à frente. Fiquei sem saber se o major falou sério ou não. O fato é que, depois do filme do José Padilha, em que a polícia militar comum é retratada como corrupta, os policiais do BOPE, a elite da corporação, estão proibidos de dar entrevistas. Disso eu já sabia. Quem quiser entrevistá-los tem que pedir autorização à cúpula da PM e esperar semanas por uma resposta, geralmente negativa. Acho que ele falou sério mesmo.
Conversa vai, conversa vem, o major deu uma relaxada e bateu um papo mais tranqüilo comigo. Aproveitei a ocasião para pedir uma foto dele com o Bob. Não me deu uma dura, pelo contrário,
me concedeu a foto. Depois agradeci, expliquei o objetivo da matéria e ele foi até bem simpático, convidando-me para conhecer o funcionamento do batalhão. Claro que não é bom abusar.
encontros de jazz | Após a saída do major Vargas, fiquei conversando com o Bob a respeito da sua relação com o pessoal da favela e dos projetos que ele desenvolve ali. E são vários: uma
clínica pré-natal, uma universidade sênior, uma galeria de arte e uma agência de talentos para gerenciar os moradores, que trabalham como figurantes nas filmagens que acontecem no local.
Além disso, toda sexta-feira à noite ele promove o Jazz at the Maze, encontro de músicos para uma jam session, embalada pela belíssima paisagem. Grandes músicos já marcaram presença no lugar. Inclusive David Juritz, líder da London Mozart Player, cuja matéria saiu na edição passada da Jungle.
um mundo perdido | Bob se mudou para a favela em 1981. Ele se encantou com a vista do alto do morro ao levar sua então empregada doméstica para casa de carro. Pergunto o que tanto fascina os gringos para quererem se hospedar numa favela.
− Aqui, os turistas podem jogar sinuca com os moradores. Conversar com todo mundo. Isso aqui é um mundo perdido que, lá embaixo, não existe mais. O diretor de efeitos especiais do Jurassic Park, por exemplo, tinha uma suíte no Caesar Park. Uma noite veio ao Maze e pediu para ficar. Eu disse: “claro!”. Ele, então, largou a suíte no hotel e ficou na pousada. A idéia de um mundo perdido me acompanhou no caminho de volta ao carro. Fiquei observando os moradores, a senhora que continuava sentada na calçada e as crianças soltando pipa.
Tavares Bastos não é uma favela comum, é especial. E isso se deve, sobretudo, a um carismático e criativo inglês, que soube fazer do lugar a sua casa, devolvendo-lhe a tranqüilidade para mostrá-lo ao resto do mundo. Pena que o morro do Bob é apenas uma ilha nesta cidade de 8 milhões de habitantes. Ao deixar a Tavares Bastos, voltei ao verdadeiro mundo perdido: o Rio de Janeiro onde não se pode andar em qualquer lugar, nem a qualquer hora, nem de qualquer jeito... JD