O inglês que se apaixonou por uma favela e a transformou no lugar mais seguro da cidade

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o bob | Foi ali que encontramos Bob Nadkarni, a conversar animadamente com uma turista inglesa. Bob tentava resumir para a hóspede, que acabara de chegar ao país, como funciona o sistema político brasileiro. - O Brasil não é uma democracia, é uma cleptocracia. O governo é quem primeiro rouba todo o dinheiro. Quando alguém começa a reclamar aqui, ele solta um pouco para calar a boca. Se um outro começa a gritar ali, ele solta mais um pouquinho para este também. Assim, vai soltando a grana até todo mundo parar de reclamar, do topo da pirâmide até a base. Mas os pobres, que são as pessoas honestas, esses não gritam. Só ganham boné e camiseta com o nome do político.

E o Bob é assim mesmo. Fala o que quer e não poupa ninguém. Esse singular inglês não é só capaz de falar mal dos nossos políticos: a sua munição se volta também para a terra natal com a mesma facilidade. Perguntei se via alguma solução para o Brasil.

- Não sei. Veja a Inglaterra. Eu fui criado num tempo em que a honestidade e a palavra eram as coisas mais importantes na vida. Veio a Margaret Thatcher e destruiu tudo isso. A Inglaterra que conheci não existe mais. A mesma coisa quando cheguei aqui. Em Salvador, uma vez encontrei uma carteira. Ao entregá-la para a polícia, o policial disse para o colega: “Olha só que gringo otário”. Duas semanas depois, recebi um troco a mais num bar, devolvi o dinheiro para o garçom e escutei a mesma coisa: “Ah, esses gringos são otários mesmo”. Na terceira ocasião, pensei: Ah, entendi! “Otário” quer dizer “honesto”. Passei seis meses para descobrir que otário não quer dizer honesto.

uma volta pelo maze inn | A minha conversa com Bob foi sempre em movimento. Começou na varanda e se estendeu pelo resto da sua labiríntica criação. Nos tortuosos caminhos do lugar, ao mesmo tempo em que falava de política e contava piadas, explicava-me a construção da obra.

Tudo na pousada foi arquitetado por ele. Desde o chão de mosaicos, que se espalham do chão ao teto, até as portas, as escadas e, claro, as pinturas que adornam praticamente todas as paredes
do lugar. Segundo sua particular visão, parede só serve de suporte para quadros. Muita gente o comparou a Gaudi. Nem precisei pergunta-lhe sobre isso. No meio da conversa já se adiantou:

− As pessoas falam que isso aqui parece coisa do Gaudi, mas não é verdade, é completamente diferente. Minha inspiração vem da própria favela, da paisagem em frente, das coisas que eu vejo na natureza. E assim fomos andando pelo lugar até chegarmos a uma varanda, no topo da construção. Do lado esquerdo, enxerga-se o Aterro do Flamengo inteiro e o aeroporto Santos Dumont.

− Aqui é legal. Posso ver meus amigos chegando e depois indo embora tristes, todos chorando – diverte-se Bob, enquanto assistíamos a um avião que decolava, passando bem perto de nós.

No centro da paisagem, visualiza-se todo o Catete, o majestoso Pão de Açúcar e a Urca. No lado direito, o Flamengo, o resto da favela e o prédio que abriga o batalhão do BOPE. De repente, Bob exclama:
− Bom dia! – e acena para as pessoas no topo do edifício ao lado.
− Vou passar por aí, Bob! – grita alguém do outro lado, a quem fico logo sabendo ser o Major Vargas.
− Já mandei esquentar outro bule de chá! − emenda o nosso simpático anfitrião ao major do batalhão da polícia mais temida do Brasil.
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